De manhã cedo, num parque de Xangai ou de Lisboa, um grupo move-se devagar, em sincronia. Parece ginástica suave, mas por trás daqueles gestos lentos há técnicas de combate. É o tai chi, a mais conhecida das chamadas artes internas.
Interno e externo
Os chineses dividem muitas vezes o kung fu em duas famílias. As artes «externas», associadas a Shaolin, treinam força, velocidade e resistência. As «internas», neijia, dizem partir de dentro: respiração, relaxamento, estrutura do corpo e intenção. A distinção aparece pela primeira vez por escrito em 1669, num epitáfio que o erudito Huang Zongxi escreveu para o lutador Wang Zhengnan. Alguns historiadores lêem esse texto como um gesto político: Huang opunha-se à dinastia manchu Qing, e ligou as artes «internas» ao taoísmo chinês e as «externas» ao budismo, vindo de fora. Em 1676, o filho, Huang Baijia, compilou o manual mais antigo que se conhece deste grupo.
No início do século XX, Sun Lutang fixou o núcleo do grupo em três artes: tai chi, baguazhang e xingyiquan. Muitas listas juntam-lhes o bajiquan. Na prática, as fronteiras entre interno e externo são difusas, e quase todos os estilos treinam as duas coisas.
Lendas e história
A lenda mais conhecida diz que o tai chi foi criado por Zhang Sanfeng, um imortal taoísta das montanhas de Wudang. Os historiadores são céticos: a primeira ligação entre Zhang Sanfeng e as artes marciais é precisamente o epitáfio de 1669, e as outras só aparecem no século XIX. O que está documentado é que a prática se desenvolveu na transição entre as dinastias Ming e Qing, na aldeia de Chen e na vizinha aldeia de Zhaobao, em Henan. Parte da terminologia parece vir do «Clássico do Pugilismo» do general Qi Jiguang, do século XVI.
O tai chi e as suas famílias
A tradição atribui a Chen Wangting a sistematização do tai chi no século XVII. No século XIX, Yang Luchan aprendeu-o na aldeia Chen e levou-o para Pequim; o seu estilo Yang, amplo e regular, é hoje o mais praticado. Dos Yang nasceu o estilo Wu, mais compacto, transmitido por Wu Jianquan. De outra linha saiu o estilo Wu/Hao e, dele, o Sun. Antes de meados do século XIX, quem via a arte de fora chamava-lhe nomes como «boxe de algodão» ou «as treze técnicas»; o nome taijiquan só se generalizou no início do século XX.
Em 1912, o Instituto de Pesquisa de Educação Física de Pequim publicou os «Clássicos do Taijiquan», e mestres como Yang Chengfu, Wu Jianquan e Sun Lutang começaram a dar aulas abertas ao público. Em 1928, Chen Fake mostrou em Pequim a versão da família Chen, com explosões de força e espirais. Em 1956, o governo chinês criou uma forma simplificada de 24 movimentos, que espalhou o tai chi como exercício de saúde.
Chen Fake (1887–1957), que levou o estilo Chen para Pequim. Autor: unknown, copyright expired · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia CommonsYang Chengfu na postura «chicote simples». Autor: Unknown author · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Como se treina
A base é a forma: uma sequência longa, feita devagar, que ensina a mover o corpo como um todo. Depois vem o tuishou, «empurrar com as mãos», em que dois parceiros tentam desequilibrar-se mantendo o contacto e a sensibilidade. Mais adiante entram as aplicações de golpes, as projeções, o combate livre e as armas, como a espada reta (jian), o sabre e a lança. Os textos clássicos do tai chi citam o I Ching, Zhuangzi e Mêncio, e a ligação ao taoísmo foi muito sublinhada a partir do fim da dinastia Qing.
Bagua, xingyi e baji
O baguazhang é atribuído a Dong Haichuan, que no início do século XIX terá aprendido com mestres taoístas e budistas nas montanhas e depois ensinou durante muitos anos em Pequim, chegando a ter proteção da corte. O treino característico é «andar no círculo»: o praticante caminha à volta de um ponto, mudando de direção com torções rápidas da palma. Entre os seus alunos estavam Yin Fu e Cheng Tinghua.
O xingyiquan é o oposto: avança em linha reta com golpes curtos e potentes, organizados segundo os cinco elementos chineses e completados por formas inspiradas em animais. A lenda atribui-o ao general Yue Fei, da dinastia Song, mas não há provas disso; os primeiros registos escritos são do século XVIII, de Ma Xueli, em Henan, e Dai Longbang, em Shanxi. Pode ter nascido de técnicas militares de lança.
Sun Lutang (1860–1933) estudou as três artes e escreveu, em 1915, que formavam uma unidade. O bajiquan, de Hebei, é aparentado, com golpes de ombro e cotovelo de curta distância; um dos seus nomes mais célebres foi Li Shuwen.
Sun Lutang em 1930. Autor: Unknown author · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Esquema simplificado: muitos estilos têm mais de uma raiz.
O tai chi hoje
O tai chi saiu da China cedo. Choy Hok Pang, aluno de Yang Chengfu, foi o primeiro conhecido a ensiná-lo abertamente nos Estados Unidos, a partir de 1939, e Cheng Man-ch'ing abriu escola em Nova Iorque em 1964, com uma versão simplificada do estilo Yang. Hoje pratica-se em todo o mundo, tanto como arte marcial como exercício de saúde, e o wushu desportivo tem provas de formas de tai chi. Em 2020, a UNESCO inscreveu o tai chi na lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Tai chi ao ar livre em Kowloon, Hong Kong, 2009. Autor: Jakub Hałun · Licença: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Curiosidades
As artes internas são um tema clássico dos romances e filmes de wuxia, onde os heróis vêm quase sempre de Wudang. E o nome «Wudang» é usado na China para distinguir estas artes das de Shaolin, mesmo quando não têm qualquer ligação real com aquelas montanhas.
Linha do tempo
1669Huang Zongxi distingue artes internas e externas.
1676Huang Baijia compila o Neijia Quanfa.
séc. XVIITradição: Chen Wangting sistematiza o tai chi na aldeia Chen.
séc. XIXYang Luchan ensina tai chi em Pequim; Dong Haichuan divulga o baguazhang.
1912Publicados em Pequim os «Clássicos do Taijiquan».
1915Sun Lutang publica sobre a unidade das três artes internas.
1928Chen Fake começa a ensinar em Pequim.
1939Choy Hok Pang ensina tai chi nos EUA.
1956Criada a forma simplificada de 24 movimentos.
2020Tai chi inscrito no Património Imaterial da UNESCO.
Early in the morning, in a park in Shanghai or Lisbon, a group moves slowly and in sync. It looks like gentle exercise, but behind those slow gestures are fighting techniques. This is tai chi, the best known of the so-called internal arts.
Internal and external
The Chinese often divide kung fu into two families. The "external" arts, associated with Shaolin, train strength, speed and endurance. The "internal" arts, neijia, claim to start from within: breathing, relaxation, body structure and intent. The distinction first appears in writing in 1669, in an epitaph the scholar Huang Zongxi wrote for the fighter Wang Zhengnan. Some historians read that text as a political gesture: Huang opposed the Manchu Qing dynasty, and he linked the "internal" arts to Chinese Taoism and the "external" ones to Buddhism, a foreign import. In 1676 his son, Huang Baijia, compiled the oldest known manual of this group.
In the early 20th century Sun Lutang set the core of the group as three arts: tai chi, baguazhang and xingyiquan. Many lists add bajiquan. In practice the line between internal and external is blurry, and almost every style trains both.
Legends and history
The best-known legend says tai chi was created by Zhang Sanfeng, a Taoist immortal of the Wudang Mountains. Historians are sceptical: the first link between Zhang Sanfeng and martial arts is that same 1669 epitaph, and the others only appear in the 19th century. What is documented is that the practice developed during the Ming–Qing transition in Chen village and nearby Zhaobao village, in Henan. Some of its terminology seems to come from the "Classic of Pugilism" by the 16th-century general Qi Jiguang.
Tai chi and its families
Tradition credits Chen Wangting with systematising tai chi in the 17th century. In the 19th century Yang Luchan learned it in Chen village and took it to Beijing; his Yang style, broad and even, is the most practised today. From the Yang came the more compact Wu style, passed on by Wu Jianquan. Another line produced the Wu/Hao style and, from it, Sun style. Before the mid-19th century outsiders called the art names like "cotton boxing" or "the thirteen techniques"; the name taijiquan only became common in the early 20th century.
In 1912 the Beijing Physical Education Research Institute published the "Taijiquan Classics", and masters such as Yang Chengfu, Wu Jianquan and Sun Lutang began teaching classes open to the public. In 1928 Chen Fake showed Beijing the Chen family version, with bursts of power and spirals. In 1956 the Chinese government created a simplified 24-movement form, which spread tai chi as a health exercise.
Chen Fake (1887–1957), who took Chen style to Beijing. Author: unknown, copyright expired · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia CommonsYang Chengfu demonstrating Single Whip. Author: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
How it is trained
The foundation is the form: a long sequence, done slowly, that teaches you to move the body as one unit. Then comes tuishou, "push hands", where two partners try to unbalance each other while keeping contact and sensitivity. Later come striking applications, throws, free sparring and weapons such as the straight sword (jian), the sabre and the spear. The classic tai chi texts quote the I Ching, Zhuangzi and Mencius, and the link to Taoism was strongly emphasised from the late Qing dynasty on.
Bagua, xingyi and baji
Baguazhang is credited to Dong Haichuan, who in the early 19th century is said to have learned from Taoist and Buddhist masters in the mountains, and later taught for many years in Beijing, eventually winning patronage from the court. Its signature training is "walking the circle": the practitioner walks around a point, changing direction with quick twisting palm changes. His students included Yin Fu and Cheng Tinghua.
Xingyiquan is the opposite: it advances in a straight line with short, powerful strikes organised by the five Chinese elements and completed by animal-inspired forms. Legend credits it to the Song dynasty general Yue Fei, but there is no evidence for this; the first written records date from the 18th century, from Ma Xueli in Henan and Dai Longbang in Shanxi. It may have grown out of military spear techniques.
Sun Lutang (1860–1933) studied all three arts and wrote in 1915 that they formed a single whole. Bajiquan, from Hebei, is related, with short-range shoulder and elbow strikes; one of its most famous names was Li Shuwen.
Sun Lutang in 1930. Author: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Simplified chart: many styles have more than one root.
Tai chi today
Tai chi left China early. Choy Hok Pang, a student of Yang Chengfu, was the first known teacher to teach it openly in the United States, from 1939, and Cheng Man-ch'ing opened a school in New York in 1964 with a simplified version of Yang style. Today it is practised worldwide, both as a martial art and as health exercise, and sport wushu has tai chi form events. In 2020 UNESCO inscribed tai chi on the list of the Intangible Cultural Heritage of Humanity.
Outdoor tai chi in Kowloon, Hong Kong, 2009. Author: Jakub Hałun · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Curiosities
The internal arts are a classic theme of wuxia novels and films, where the heroes almost always come from Wudang. And in China the name "Wudang" is used to set these arts apart from Shaolin, even when they have no real link to those mountains.
Timeline
1669Huang Zongxi distinguishes internal and external arts.
1676Huang Baijia compiles the Neijia Quanfa.
17th c.Tradition: Chen Wangting systematises tai chi in Chen village.
19th c.Yang Luchan teaches tai chi in Beijing; Dong Haichuan spreads baguazhang.
1912The Taijiquan Classics are published in Beijing.
1915Sun Lutang writes on the unity of the three internal arts.
1928Chen Fake starts teaching in Beijing.
1939Choy Hok Pang teaches tai chi in the US.
1956The simplified 24-movement form is created.
2020Tai chi inscribed as UNESCO Intangible Heritage.
A primera hora de la mañana, en un parque de Shanghái o de Lisboa, un grupo se mueve despacio y en sincronía. Parece gimnasia suave, pero detrás de esos gestos lentos hay técnicas de combate. Es el taichí, la más conocida de las llamadas artes internas.
Interno y externo
Los chinos suelen dividir el kung fu en dos familias. Las artes «externas», asociadas a Shaolin, entrenan fuerza, velocidad y resistencia. Las «internas», neijia, dicen partir de dentro: respiración, relajación, estructura del cuerpo e intención. La distinción aparece por escrito por primera vez en 1669, en un epitafio que el erudito Huang Zongxi escribió para el luchador Wang Zhengnan. Algunos historiadores leen ese texto como un gesto político: Huang se oponía a la dinastía manchú Qing y vinculó las artes «internas» al taoísmo chino y las «externas» al budismo, llegado de fuera. En 1676 su hijo, Huang Baijia, recopiló el manual más antiguo conocido de este grupo.
A comienzos del siglo XX, Sun Lutang fijó el núcleo del grupo en tres artes: taichí, baguazhang y xingyiquan. Muchas listas añaden el bajiquan. En la práctica, la frontera entre interno y externo es difusa, y casi todos los estilos entrenan ambas cosas.
Leyendas e historia
La leyenda más conocida dice que el taichí lo creó Zhang Sanfeng, un inmortal taoísta de las montañas de Wudang. Los historiadores son escépticos: el primer vínculo entre Zhang Sanfeng y las artes marciales es ese mismo epitafio de 1669, y los demás solo aparecen en el siglo XIX. Lo documentado es que la práctica se desarrolló durante la transición entre las dinastías Ming y Qing en la aldea Chen y en la vecina aldea de Zhaobao, en Henan. Parte de su terminología parece venir del «Clásico del pugilismo» del general Qi Jiguang, del siglo XVI.
El taichí y sus familias
La tradición atribuye a Chen Wangting la sistematización del taichí en el siglo XVII. En el siglo XIX, Yang Luchan lo aprendió en la aldea Chen y lo llevó a Pekín; su estilo Yang, amplio y regular, es hoy el más practicado. De los Yang nació el estilo Wu, más compacto, transmitido por Wu Jianquan. Otra línea dio el estilo Wu/Hao y, de él, el Sun. Antes de mediados del siglo XIX, quienes veían el arte desde fuera lo llamaban «boxeo de algodón» o «las trece técnicas»; el nombre taijiquan solo se generalizó a comienzos del siglo XX.
En 1912 el Instituto de Investigación de Educación Física de Pekín publicó los «Clásicos del taijiquan», y maestros como Yang Chengfu, Wu Jianquan y Sun Lutang empezaron a dar clases abiertas al público. En 1928 Chen Fake mostró en Pekín la versión de la familia Chen, con explosiones de fuerza y espirales. En 1956 el gobierno chino creó una forma simplificada de 24 movimientos, que difundió el taichí como ejercicio de salud.
Chen Fake (1887–1957), que llevó el estilo Chen a Pekín. Autor: unknown, copyright expired · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia CommonsYang Chengfu en la postura «látigo simple». Autor: Unknown author · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Cómo se entrena
La base es la forma: una secuencia larga, hecha despacio, que enseña a mover el cuerpo como un todo. Después viene el tuishou, «empujar con las manos», en el que dos compañeros intentan desequilibrarse manteniendo el contacto y la sensibilidad. Más adelante llegan las aplicaciones de golpes, las proyecciones, el combate libre y las armas, como la espada recta (jian), el sable y la lanza. Los textos clásicos del taichí citan el I Ching, a Zhuangzi y a Mencio, y el vínculo con el taoísmo se subrayó mucho desde finales de la dinastía Qing.
Bagua, xingyi y baji
El baguazhang se atribuye a Dong Haichuan, que a comienzos del siglo XIX habría aprendido con maestros taoístas y budistas en las montañas y después enseñó muchos años en Pekín, llegando a tener protección de la corte. Su entrenamiento característico es «caminar el círculo»: el practicante camina alrededor de un punto y cambia de dirección con rápidos giros de la palma. Entre sus alumnos estuvieron Yin Fu y Cheng Tinghua.
El xingyiquan es lo contrario: avanza en línea recta con golpes cortos y potentes, organizados según los cinco elementos chinos y completados con formas inspiradas en animales. La leyenda lo atribuye al general Yue Fei, de la dinastía Song, pero no hay pruebas; los primeros registros escritos son del siglo XVIII, de Ma Xueli, en Henan, y Dai Longbang, en Shanxi. Puede haber nacido de técnicas militares de lanza.
Sun Lutang (1860–1933) estudió las tres artes y escribió en 1915 que formaban una unidad. El bajiquan, de Hebei, es pariente, con golpes de hombro y codo a corta distancia; uno de sus nombres más célebres fue Li Shuwen.
Sun Lutang en 1930. Autor: Unknown author · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Esquema simplificado: muchos estilos tienen más de una raíz.
El taichí hoy
El taichí salió pronto de China. Choy Hok Pang, alumno de Yang Chengfu, fue el primero conocido en enseñarlo abiertamente en Estados Unidos, desde 1939, y Cheng Man-ch'ing abrió escuela en Nueva York en 1964 con una versión simplificada del estilo Yang. Hoy se practica en todo el mundo, como arte marcial y como ejercicio de salud, y el wushu deportivo tiene pruebas de formas de taichí. En 2020 la UNESCO inscribió el taichí en la lista del Patrimonio Cultural Inmaterial de la Humanidad.
Taichí al aire libre en Kowloon, Hong Kong, 2009. Autor: Jakub Hałun · Licencia: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Curiosidades
Las artes internas son un tema clásico de las novelas y películas de wuxia, donde los héroes casi siempre vienen de Wudang. Y en China el nombre «Wudang» se usa para distinguir estas artes de las de Shaolin, aunque no tengan ninguna relación real con esas montañas.
Cronología
1669Huang Zongxi distingue artes internas y externas.
1676Huang Baijia recopila el Neijia Quanfa.
s. XVIITradición: Chen Wangting sistematiza el taichí en la aldea Chen.
s. XIXYang Luchan enseña taichí en Pekín; Dong Haichuan difunde el baguazhang.
1912Se publican en Pekín los «Clásicos del taijiquan».
1915Sun Lutang escribe sobre la unidad de las tres artes internas.
1928Chen Fake empieza a enseñar en Pekín.
1939Choy Hok Pang enseña taichí en EE. UU.
1956Se crea la forma simplificada de 24 movimientos.
2020El taichí entra en el Patrimonio Inmaterial de la UNESCO.
Tôt le matin, dans un parc de Shanghai ou de Lisbonne, un groupe bouge lentement, en synchronie. On dirait une gymnastique douce, mais derrière ces gestes lents se cachent des techniques de combat. C'est le tai-chi, le plus connu des arts internes.
Interne et externe
Les Chinois divisent souvent le kung-fu en deux familles. Les arts « externes », associés à Shaolin, travaillent la force, la vitesse et l'endurance. Les arts « internes », neijia, disent partir de l'intérieur : respiration, relâchement, structure du corps et intention. La distinction apparaît pour la première fois par écrit en 1669, dans une épitaphe que le lettré Huang Zongxi rédigea pour le combattant Wang Zhengnan. Certains historiens y voient un geste politique : Huang s'opposait à la dynastie mandchoue des Qing et rattacha les arts « internes » au taoïsme chinois et les « externes » au bouddhisme, venu de l'étranger. En 1676, son fils Huang Baijia compila le plus ancien manuel connu de ce groupe.
Au début du XXe siècle, Sun Lutang fixa le cœur du groupe à trois arts : tai-chi, baguazhang et xingyiquan. Beaucoup de listes y ajoutent le bajiquan. En pratique, la frontière entre interne et externe est floue, et presque tous les styles travaillent les deux.
Légendes et histoire
La légende la plus connue attribue le tai-chi à Zhang Sanfeng, un immortel taoïste des monts Wudang. Les historiens sont sceptiques : le premier lien entre Zhang Sanfeng et les arts martiaux est justement l'épitaphe de 1669, et les autres n'apparaissent qu'au XIXe siècle. Ce qui est documenté, c'est que la pratique s'est développée pendant la transition entre les dynasties Ming et Qing, au village Chen et au village voisin de Zhaobao, dans le Henan. Une partie de sa terminologie semble venir du « Classique du pugilat » du général Qi Jiguang, au XVIe siècle.
Le tai-chi et ses familles
La tradition attribue à Chen Wangting la systématisation du tai-chi au XVIIe siècle. Au XIXe siècle, Yang Luchan l'apprit au village Chen et l'emporta à Pékin ; son style Yang, ample et régulier, est aujourd'hui le plus pratiqué. Des Yang est né le style Wu, plus compact, transmis par Wu Jianquan. Une autre lignée a donné le style Wu/Hao, puis le style Sun. Avant le milieu du XIXe siècle, les observateurs extérieurs l'appelaient « boxe du coton » ou « les treize techniques » ; le nom taijiquan ne s'est généralisé qu'au début du XXe siècle.
En 1912, l'Institut de recherche en éducation physique de Pékin publia les « Classiques du taijiquan », et des maîtres comme Yang Chengfu, Wu Jianquan et Sun Lutang commencèrent à donner des cours ouverts au public. En 1928, Chen Fake montra à Pékin la version de la famille Chen, avec ses explosions de force et ses spirales. En 1956, le gouvernement chinois créa une forme simplifiée en 24 mouvements, qui diffusa le tai-chi comme exercice de santé.
Chen Fake (1887–1957), qui apporta le style Chen à Pékin. Auteur: unknown, copyright expired · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia CommonsYang Chengfu dans la posture du « simple fouet ». Auteur: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Comment on s'entraîne
La base est la forme : un long enchaînement, exécuté lentement, qui apprend à bouger le corps comme un tout. Vient ensuite le tuishou, la « poussée des mains », où deux partenaires cherchent à se déséquilibrer en gardant le contact et la sensibilité. Plus tard viennent les applications de frappes, les projections, le combat libre et les armes, comme l'épée droite (jian), le sabre et la lance. Les textes classiques du tai-chi citent le Yi King, Zhuangzi et Mencius, et le lien avec le taoïsme a été très souligné à partir de la fin des Qing.
Bagua, xingyi et baji
Le baguazhang est attribué à Dong Haichuan, qui aurait appris au début du XIXe siècle auprès de maîtres taoïstes et bouddhistes dans les montagnes, puis enseigna de longues années à Pékin, jusqu'à obtenir la protection de la cour. Son entraînement caractéristique est la « marche en cercle » : le pratiquant tourne autour d'un point et change de direction par de rapides torsions de la paume. Parmi ses élèves figuraient Yin Fu et Cheng Tinghua.
Le xingyiquan est tout l'inverse : il avance en ligne droite avec des frappes courtes et puissantes, organisées selon les cinq éléments chinois et complétées par des formes inspirées d'animaux. La légende l'attribue au général Yue Fei, de la dynastie Song, mais rien ne le prouve ; les premières traces écrites datent du XVIIIe siècle, avec Ma Xueli dans le Henan et Dai Longbang dans le Shanxi. Il pourrait être issu de techniques militaires de lance.
Sun Lutang (1860–1933) étudia les trois arts et écrivit en 1915 qu'ils formaient une unité. Le bajiquan, du Hebei, en est proche, avec des frappes d'épaule et de coude à courte distance ; l'un de ses noms les plus célèbres fut Li Shuwen.
Sun Lutang en 1930. Auteur: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Schéma simplifié : beaucoup de styles ont plusieurs racines.
Le tai-chi aujourd'hui
Le tai-chi a quitté la Chine assez tôt. Choy Hok Pang, élève de Yang Chengfu, fut le premier connu à l'enseigner ouvertement aux États-Unis, dès 1939, et Cheng Man-ch'ing ouvrit une école à New York en 1964 avec une version simplifiée du style Yang. Il se pratique aujourd'hui dans le monde entier, comme art martial et comme exercice de santé, et le wushu sportif a des épreuves de formes de tai-chi. En 2020, l'UNESCO a inscrit le tai-chi sur la liste du patrimoine culturel immatériel de l'humanité.
Tai-chi en plein air à Kowloon, Hong Kong, 2009. Auteur: Jakub Hałun · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Curiosités
Les arts internes sont un thème classique des romans et films de wuxia, où les héros viennent presque toujours de Wudang. Et en Chine, le nom « Wudang » sert à distinguer ces arts de ceux de Shaolin, même lorsqu'ils n'ont aucun lien réel avec ces montagnes.
Chronologie
1669Huang Zongxi distingue arts internes et externes.
1676Huang Baijia compile le Neijia Quanfa.
XVIIe s.Tradition : Chen Wangting systématise le tai-chi au village Chen.
XIXe s.Yang Luchan enseigne le tai-chi à Pékin ; Dong Haichuan diffuse le baguazhang.
1912Publication à Pékin des « Classiques du taijiquan ».
1915Sun Lutang écrit sur l'unité des trois arts internes.
1928Chen Fake commence à enseigner à Pékin.
1939Choy Hok Pang enseigne le tai-chi aux États-Unis.
1956Création de la forme simplifiée en 24 mouvements.
2020Le tai-chi inscrit au patrimoine immatériel de l'UNESCO.