Um lutador japonês chega à Amazónia, ensina um rapaz de Belém e, setenta anos depois, os descendentes desse rapaz mudam a forma como o mundo vê o combate. É a história do jiu-jitsu brasileiro, do vale-tudo e do nascimento do MMA.
O «Conde Koma»
Mitsuyo Maeda (1878–1941) era aluno do Kōdōkan, a escola de judo de Jigorō Kanō. No início do século XX correu o mundo a fazer demonstrações e combates contra lutadores de vários estilos, e ganhou a alcunha de «Conde Koma». Chegou a Porto Alegre em novembro de 1914 e, em dezembro de 1915, fez a sua primeira demonstração em Belém do Pará, no Theatro Politheama. Ficou a viver no Brasil e morreu em Belém, em 1941.
Em Belém, Maeda ensinou o jovem Carlos Gracie. Na época, no Brasil, chamava-se «jiu-jitsu» ao que hoje diríamos judo. O próprio Hélio Gracie disse, numa entrevista de 1994, que nem conhecia a palavra «judo» até o desporto chegar ao Brasil nos anos 1950, porque Maeda chamava ao que ensinava «jiu-jitsu». Daí o nome que ficou.
A academia Gracie
Em 1925 Carlos abriu uma academia no Rio de Janeiro com os irmãos. O mais novo, Hélio Gracie, era magro e de saúde frágil. Conta a tradição da família que, por não conseguir fazer as técnicas à força, as foi ajustando para funcionarem com alavancas e boa posição, sobretudo no chão. Daqui nasceu a ideia central do BJJ: uma pessoa mais pequena pode vencer uma maior se levar a luta para o solo e a controlar. Ao lado dos Gracie houve outra linha importante, a de Luiz França e Oswaldo Fadda, cujos alunos ficaram famosos pelas chaves de pé; dela descendem equipas como a Nova União.
Hélio Gracie em 1952. Autor: Unknown · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Desafios e vale-tudo
Para provar o seu método, os Gracie desafiavam lutadores de outros estilos. Em 1951, no Maracanã, Hélio enfrentou o campeão japonês Masahiko Kimura. Kimura venceu com uma chave de braço invertida, o gyaku-ude-garami, que desde então se chama «kimura». Em 1955, Hélio foi desafiado por Valdemar Santana, antigo aluno da academia; o combate durou quase quatro horas e acabou com Hélio nocauteado e a toalha atirada pelo seu canto.
A expressão «vale-tudo» só se popularizou em 1959–1960, com um programa de televisão do Rio chamado «Heróis do Ringue», que punha frente a frente lutadores de estilos diferentes. A grande rivalidade do Rio era entre o jiu-jitsu e a luta livre, uma luta de finalizações sem quimono criada por Euclydes Hatem, o «Mestre Tatu», a partir do catch wrestling. Em 1980 e 1984, Rickson Gracie encheu o Maracanãzinho contra o lutador «Rei Zulu». Em 1991, o evento «Desafio: Jiu-Jitsu vs Luta Livre» levou essa rivalidade para a televisão.
Esquema simplificado: muitos estilos têm mais de uma raiz.
Técnicas
O BJJ partilha muitas técnicas com o judo e com escolas antigas de jūjutsu que davam importância ao trabalho no chão, mas seguiu o seu próprio caminho. O centro da luta é a guarda: o lutador de costas no chão controla o adversário com as pernas, e daí raspa (inverte a posição) ou finaliza. Ao contrário do judo e da luta olímpica, é permitido «puxar para a guarda», levando o adversário para o chão sem o projetar. As posições dominantes, como a montada e o controlo das costas, valem pontos. As vitórias por finalização vêm de estrangulamentos e de chaves às articulações. Nos torneios, as chaves de pé mais perigosas, como o heel hook, só são permitidas em certas categorias e sem quimono.
Pratica-se de quimono (gi) ou sem ele (no-gi), com camisola de licra. Sem quimono não se pode agarrar a roupa, e a luta fica mais rápida e escorregadia.
Chave de braço numa competição de jiu-jitsu de quimono. Autor: parhessiastes · Licença: CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
O salto para o mundo
Rorion Gracie mudou-se para os Estados Unidos nos anos 1970 e, com o empresário Art Davie, criou o UFC. A primeira edição realizou-se a 12 de novembro de 1993, em Denver, como um torneio para descobrir que arte funcionava melhor. Havia só três regras: não morder, não meter os dedos nos olhos e não atacar as virilhas. Venceu o irmão de Rorion, Royce Gracie, franzino, de quimono, que na final finalizou Gerard Gordeau com um estrangulamento por trás. O impacto foi enorme: em poucos anos, todos os lutadores sabiam que precisavam de saber lutar no chão.
No Japão, o torneio Vale Tudo Japan começou em 1994, e Rickson venceu as edições de 1994 e 1995. Em 1997 nasceu o PRIDE, criado para o pôr frente a frente com o lutador japonês Nobuhiko Takada. O MMA moderno cresceu destes eventos.
Royce Gracie num seminário de jiu-jitsu Gracie. Autor: MartialArtsNomad.com · Licença: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
O jiu-jitsu hoje
Ao mesmo tempo, o jiu-jitsu cresceu como desporto próprio, com campeonatos mundiais desde 1996 e, sem quimono, com o torneio ADCC, criado em Abu Dhabi em 1998. A IBJJF organiza os torneios mais conhecidos; outras organizações, como a SJJIF, querem levar o jiu-jitsu aos Jogos Olímpicos. Entre as grandes equipas estão a Gracie Barra, a Gracie Humaitá, a Carlson Gracie e a Alliance.
A graduação de faixas para adultos vai da branca à azul, roxa, castanha e preta, e é das mais lentas das artes marciais: chegar à preta pode levar uma década. Algumas escolas acrescentam uma faixa verde entre a branca e a azul, por causa dos longos intervalos entre graduações.
Curiosidades
A primeira federação de jiu-jitsu foi a Federação de Jiu-Jitsu da Guanabara, que continua a ser a federação regional do Rio de Janeiro. E o árbitro do UFC 1, João Alberto Barreto, vinha precisamente do mundo do vale-tudo carioca, onde tinha lutado no programa «Heróis do Ringue».
Linha do tempo
1914Maeda Mitsuyo chega ao Brasil.
1915Primeira demonstração de Maeda em Belém.
1925Academia Gracie abre no Rio de Janeiro.
1951Hélio Gracie perde com Kimura Masahiko no Maracanã.
1955Hélio Gracie e Valdemar Santana lutam quase quatro horas.
1959–60O programa «Heróis do Ringue» populariza o «vale-tudo».
A Japanese fighter reaches the Amazon, teaches a boy from Belém and, seventy years later, that boy's descendants change how the world sees fighting. This is the story of Brazilian jiu-jitsu, of vale tudo and of the birth of MMA.
"Conde Koma"
Mitsuyo Maeda (1878–1941) was a student of the Kōdōkan, Jigorō Kanō's judo school. In the early 20th century he travelled the world giving demonstrations and fighting opponents from many styles, earning the nickname "Conde Koma". He reached Porto Alegre in November 1914 and, in December 1915, gave his first demonstration in Belém do Pará, at the Theatro Politheama. He settled in Brazil and died in Belém in 1941.
In Belém, Maeda taught the young Carlos Gracie. At the time, in Brazil, what we would now call judo was known as "jiu-jitsu". Hélio Gracie himself said in a 1994 interview that he did not even know the word "judo" until the sport reached Brazil in the 1950s, because Maeda called what he taught "jiu-jitsu". Hence the name that stuck.
The Gracie academy
In 1925 Carlos opened an academy in Rio de Janeiro with his brothers. The youngest, Hélio Gracie, was slight and in poor health. Family tradition says that, unable to do the techniques by strength, he kept adjusting them to work through leverage and good position, especially on the ground. This produced BJJ's central idea: a smaller person can beat a bigger one by taking the fight to the ground and controlling it. Alongside the Gracies there was another important line, that of Luiz França and Oswaldo Fadda, whose students became famous for footlocks; teams such as Nova União descend from it.
Hélio Gracie in 1952. Author: Unknown · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Challenges and vale tudo
To prove their method, the Gracies challenged fighters from other styles. In 1951, at the Maracanã, Hélio faced the Japanese champion Masahiko Kimura. Kimura won with a reverse arm lock, gyaku-ude-garami, which has been called the "kimura" ever since. In 1955 Hélio was challenged by Valdemar Santana, a former student of the academy; the fight lasted almost four hours and ended with Hélio knocked out and his corner throwing in the towel.
The term "vale tudo" ("anything goes") only became popular in 1959–1960, with a Rio TV show called "Heróis do Ringue" ("Heroes of the Ring"), which pitted fighters of different styles against each other. Rio's great rivalry was between jiu-jitsu and luta livre, a no-gi submission style created by Euclydes Hatem, "Mestre Tatu", from catch wrestling. In 1980 and 1984 Rickson Gracie filled the Maracanãzinho against the fighter "Rei Zulu". In 1991 the event "Desafio: Jiu-Jitsu vs Luta Livre" took that rivalry to television.
Simplified chart: many styles have more than one root.
Techniques
BJJ shares many techniques with judo and with older jūjutsu schools that valued groundwork, but it followed its own path. The centre of the fight is the guard: the fighter on his back controls the opponent with his legs and from there sweeps (reverses the position) or submits. Unlike judo and wrestling, "pulling guard" is allowed, taking the opponent to the ground without throwing him. Dominant positions, such as the mount and back control, score points. Submission wins come from chokes and joint locks. In tournaments the most dangerous leg locks, such as the heel hook, are only allowed in certain divisions and without the gi.
It is practised in a gi or without one (no-gi), in a rash guard. Without the gi you cannot grip clothing, and the fight becomes faster and more slippery.
An armbar in a gi jiu-jitsu competition. Author: parhessiastes · Licence: CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
The leap to the world
Rorion Gracie moved to the United States in the 1970s and, with businessman Art Davie, created the UFC. The first edition took place on 12 November 1993 in Denver, as a tournament to find out which art worked best. There were only three rules: no biting, no eye gouging and no groin strikes. The winner was Rorion's brother, Royce Gracie, slight and wearing a gi, who in the final submitted Gerard Gordeau with a rear naked choke. The impact was huge: within a few years every fighter knew he had to be able to fight on the ground.
In Japan the Vale Tudo Japan tournament began in 1994, and Rickson won the 1994 and 1995 editions. In 1997 PRIDE was created to match him against the Japanese fighter Nobuhiko Takada. Modern MMA grew out of these events.
Royce Gracie giving a Gracie Jiu-Jitsu seminar. Author: MartialArtsNomad.com · Licence: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Jiu-jitsu today
At the same time, jiu-jitsu grew as a sport of its own, with world championships since 1996 and, without the gi, the ADCC tournament, created in Abu Dhabi in 1998. The IBJJF runs the best-known tournaments; other bodies, such as the SJJIF, want to bring jiu-jitsu to the Olympics. Major teams include Gracie Barra, Gracie Humaitá, Carlson Gracie and Alliance.
The adult belt system goes from white to blue, purple, brown and black, and it is one of the slowest in martial arts: reaching black can take a decade. Some schools add a green belt between white and blue because of the long gaps between promotions.
Curiosities
The first jiu-jitsu federation was the Jiu-Jitsu Federation of Guanabara, which is still Rio de Janeiro's regional federation. And the referee of UFC 1, João Alberto Barreto, came straight from Rio's vale tudo world, where he had fought on "Heróis do Ringue".
Timeline
1914Maeda Mitsuyo arrives in Brazil.
1915Maeda's first demonstration in Belém.
1925Gracie academy opens in Rio de Janeiro.
1951Hélio Gracie loses to Kimura Masahiko at the Maracanã.
1955Hélio Gracie and Valdemar Santana fight for almost four hours.
1959–60The show Heróis do Ringue popularises vale tudo.
Un luchador japonés llega a la Amazonia, enseña a un chico de Belém y, setenta años después, los descendientes de ese chico cambian la forma en que el mundo ve el combate. Es la historia del jiu-jitsu brasileño, del vale tudo y del nacimiento del MMA.
El «Conde Koma»
Mitsuyo Maeda (1878–1941) era alumno del Kōdōkan, la escuela de judo de Jigorō Kanō. A comienzos del siglo XX recorrió el mundo haciendo demostraciones y combates contra luchadores de muchos estilos, y se ganó el apodo de «Conde Koma». Llegó a Porto Alegre en noviembre de 1914 y, en diciembre de 1915, hizo su primera demostración en Belém do Pará, en el Theatro Politheama. Se quedó a vivir en Brasil y murió en Belém en 1941.
En Belém, Maeda enseñó al joven Carlos Gracie. En aquella época, en Brasil, se llamaba «jiu-jitsu» a lo que hoy llamaríamos judo. El propio Hélio Gracie dijo en una entrevista de 1994 que ni siquiera conocía la palabra «judo» hasta que el deporte llegó a Brasil en los años 1950, porque Maeda llamaba «jiu-jitsu» a lo que enseñaba. De ahí el nombre que quedó.
La academia Gracie
En 1925 Carlos abrió una academia en Río de Janeiro con sus hermanos. El menor, Hélio Gracie, era delgado y de salud frágil. Cuenta la tradición familiar que, al no poder hacer las técnicas a la fuerza, las fue ajustando para que funcionaran con palancas y buena posición, sobre todo en el suelo. De ahí nació la idea central del BJJ: una persona más pequeña puede vencer a una más grande si lleva la lucha al suelo y la controla. Junto a los Gracie hubo otra línea importante, la de Luiz França y Oswaldo Fadda, cuyos alumnos se hicieron famosos por las llaves de pie; de ella descienden equipos como Nova União.
Hélio Gracie en 1952. Autor: Unknown · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Desafíos y vale tudo
Para demostrar su método, los Gracie desafiaban a luchadores de otros estilos. En 1951, en Maracaná, Hélio se enfrentó al campeón japonés Masahiko Kimura. Kimura ganó con una llave de brazo invertida, el gyaku-ude-garami, que desde entonces se llama «kimura». En 1955 Hélio fue desafiado por Valdemar Santana, antiguo alumno de la academia; el combate duró casi cuatro horas y terminó con Hélio noqueado y su esquina tirando la toalla.
La expresión «vale tudo» («todo vale») solo se popularizó en 1959–1960, con un programa de televisión de Río llamado «Heróis do Ringue», que enfrentaba a luchadores de estilos distintos. La gran rivalidad de Río era entre el jiu-jitsu y la luta livre, una lucha de sumisiones sin kimono creada por Euclydes Hatem, «Mestre Tatu», a partir del catch wrestling. En 1980 y 1984 Rickson Gracie llenó el Maracanãzinho contra el luchador «Rei Zulu». En 1991 el evento «Desafio: Jiu-Jitsu vs Luta Livre» llevó esa rivalidad a la televisión.
Esquema simplificado: muchos estilos tienen más de una raíz.
Técnicas
El BJJ comparte muchas técnicas con el judo y con escuelas antiguas de jūjutsu que daban importancia al trabajo en el suelo, pero siguió su propio camino. El centro de la lucha es la guardia: el luchador de espaldas en el suelo controla al adversario con las piernas y desde ahí barre (invierte la posición) o finaliza. A diferencia del judo y la lucha olímpica, se permite «tirar a la guardia», llevando al rival al suelo sin proyectarlo. Las posiciones dominantes, como la montada y el control de la espalda, dan puntos. Las victorias por sumisión llegan con estrangulaciones y luxaciones. En los torneos, las llaves de pierna más peligrosas, como el heel hook, solo se permiten en ciertas categorías y sin kimono.
Se practica con kimono (gi) o sin él (no-gi), con camiseta de licra. Sin kimono no se puede agarrar la ropa, y la lucha se vuelve más rápida y resbaladiza.
Llave de brazo en una competición de jiu-jitsu con kimono. Autor: parhessiastes · Licencia: CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
El salto al mundo
Rorion Gracie se trasladó a Estados Unidos en los años 1970 y, con el empresario Art Davie, creó el UFC. La primera edición se celebró el 12 de noviembre de 1993 en Denver, como un torneo para descubrir qué arte funcionaba mejor. Solo había tres reglas: no morder, no meter los dedos en los ojos y no golpear la ingle. Ganó el hermano de Rorion, Royce Gracie, delgado y con kimono, que en la final sometió a Gerard Gordeau con una estrangulación por la espalda. El impacto fue enorme: en pocos años todos los luchadores sabían que tenían que saber luchar en el suelo.
En Japón el torneo Vale Tudo Japan empezó en 1994, y Rickson ganó las ediciones de 1994 y 1995. En 1997 nació PRIDE, creado para enfrentarlo al luchador japonés Nobuhiko Takada. El MMA moderno creció a partir de estos eventos.
Royce Gracie en un seminario de jiu-jitsu Gracie. Autor: MartialArtsNomad.com · Licencia: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
El jiu-jitsu hoy
Al mismo tiempo, el jiu-jitsu creció como deporte propio, con campeonatos mundiales desde 1996 y, sin kimono, con el torneo ADCC, creado en Abu Dabi en 1998. La IBJJF organiza los torneos más conocidos; otras organizaciones, como la SJJIF, quieren llevar el jiu-jitsu a los Juegos Olímpicos. Entre los grandes equipos están Gracie Barra, Gracie Humaitá, Carlson Gracie y Alliance.
La graduación de cinturones para adultos va del blanco al azul, morado, marrón y negro, y es de las más lentas de las artes marciales: llegar al negro puede llevar una década. Algunas escuelas añaden un cinturón verde entre el blanco y el azul por los largos intervalos entre graduaciones.
Curiosidades
La primera federación de jiu-jitsu fue la Federación de Jiu-Jitsu de Guanabara, que sigue siendo la federación regional de Río de Janeiro. Y el árbitro del UFC 1, João Alberto Barreto, venía precisamente del mundo del vale tudo carioca, donde había luchado en «Heróis do Ringue».
Cronología
1914Maeda Mitsuyo llega a Brasil.
1915Primera demostración de Maeda en Belém.
1925Abre la academia Gracie en Río de Janeiro.
1951Hélio Gracie pierde ante Kimura Masahiko en Maracaná.
1955Hélio Gracie y Valdemar Santana luchan casi cuatro horas.
1959–60El programa «Heróis do Ringue» populariza el vale tudo.
Un combattant japonais arrive en Amazonie, enseigne à un garçon de Belém et, soixante-dix ans plus tard, les descendants de ce garçon changent la façon dont le monde voit le combat. C'est l'histoire du jiu-jitsu brésilien, du vale tudo et de la naissance du MMA.
Le « Conde Koma »
Mitsuyo Maeda (1878–1941) était élève du Kōdōkan, l'école de judo de Jigorō Kanō. Au début du XXe siècle, il parcourut le monde en donnant des démonstrations et en affrontant des combattants de nombreux styles, ce qui lui valut le surnom de « Conde Koma ». Il arriva à Porto Alegre en novembre 1914 et, en décembre 1915, donna sa première démonstration à Belém do Pará, au Theatro Politheama. Il s'installa au Brésil et mourut à Belém en 1941.
À Belém, Maeda enseigna au jeune Carlos Gracie. À l'époque, au Brésil, on appelait « jiu-jitsu » ce que l'on nommerait aujourd'hui judo. Hélio Gracie lui-même déclara dans un entretien de 1994 qu'il ne connaissait même pas le mot « judo » avant l'arrivée de ce sport au Brésil dans les années 1950, car Maeda appelait « jiu-jitsu » ce qu'il enseignait. D'où le nom resté.
L'académie Gracie
En 1925, Carlos ouvrit une académie à Rio de Janeiro avec ses frères. Le cadet, Hélio Gracie, était frêle et de santé fragile. Selon la tradition familiale, ne pouvant pas exécuter les techniques en force, il les adapta pour qu'elles fonctionnent par leviers et par bonne position, surtout au sol. De là vient l'idée centrale du BJJ : une personne plus petite peut battre une plus grande en amenant le combat au sol et en le contrôlant. À côté des Gracie existait une autre lignée importante, celle de Luiz França et d'Oswaldo Fadda, dont les élèves devinrent célèbres pour leurs clés de pied ; des équipes comme Nova União en descendent.
Hélio Gracie en 1952. Auteur: Unknown · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Défis et vale tudo
Pour prouver leur méthode, les Gracie défiaient des combattants d'autres styles. En 1951, au Maracanã, Hélio affronta le champion japonais Masahiko Kimura. Kimura gagna par une clé de bras inversée, le gyaku-ude-garami, appelée depuis « kimura ». En 1955, Hélio fut défié par Valdemar Santana, ancien élève de l'académie ; le combat dura près de quatre heures et se termina par Hélio mis KO et son coin jetant l'éponge.
L'expression « vale tudo » (« tout est permis ») ne se popularisa qu'en 1959–1960, avec une émission de télévision de Rio appelée « Heróis do Ringue », qui opposait des combattants de styles différents. La grande rivalité de Rio opposait le jiu-jitsu à la luta livre, une lutte de soumission sans kimono créée par Euclydes Hatem, « Mestre Tatu », à partir du catch wrestling. En 1980 et 1984, Rickson Gracie remplit le Maracanãzinho face au combattant « Rei Zulu ». En 1991, l'événement « Desafio : Jiu-Jitsu vs Luta Livre » porta cette rivalité à la télévision.
Schéma simplifié : beaucoup de styles ont plusieurs racines.
Techniques
Le BJJ partage beaucoup de techniques avec le judo et avec d'anciennes écoles de jūjutsu qui accordaient de l'importance au sol, mais il a suivi sa propre voie. Le centre du combat est la garde : le combattant sur le dos contrôle l'adversaire avec les jambes et, de là, renverse la position ou soumet. Contrairement au judo et à la lutte, il est permis de « tirer la garde », c'est-à-dire d'amener l'adversaire au sol sans le projeter. Les positions dominantes, comme la montée et le contrôle du dos, rapportent des points. Les victoires par soumission viennent des étranglements et des clés articulaires. En tournoi, les clés de jambe les plus dangereuses, comme le heel hook, ne sont autorisées que dans certaines catégories et sans kimono.
On le pratique en kimono (gi) ou sans (no-gi), avec un maillot moulant. Sans kimono, on ne peut pas saisir les vêtements, et le combat devient plus rapide et plus glissant.
Clé de bras lors d'une compétition de jiu-jitsu en kimono. Auteur: parhessiastes · Licence: CC BY-SA 2.0 · Wikimedia Commons
L'envol mondial
Rorion Gracie s'installa aux États-Unis dans les années 1970 et créa l'UFC avec l'homme d'affaires Art Davie. La première édition eut lieu le 12 novembre 1993 à Denver, comme un tournoi pour découvrir quel art fonctionnait le mieux. Il n'y avait que trois règles : ne pas mordre, ne pas mettre les doigts dans les yeux et ne pas frapper à l'entrejambe. Le vainqueur fut le frère de Rorion, Royce Gracie, mince et en kimono, qui soumit en finale Gerard Gordeau par un étranglement arrière. L'impact fut énorme : en quelques années, tous les combattants savaient qu'il leur fallait savoir combattre au sol.
Au Japon, le tournoi Vale Tudo Japan débuta en 1994, et Rickson remporta les éditions 1994 et 1995. En 1997 fut créé le PRIDE, pour l'opposer au combattant japonais Nobuhiko Takada. Le MMA moderne est né de ces événements.
Royce Gracie lors d'un stage de jiu-jitsu Gracie. Auteur: MartialArtsNomad.com · Licence: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Le jiu-jitsu aujourd'hui
Parallèlement, le jiu-jitsu s'est développé comme sport à part entière, avec des championnats du monde depuis 1996 et, sans kimono, le tournoi ADCC, créé à Abou Dabi en 1998. L'IBJJF organise les tournois les plus connus ; d'autres organisations, comme la SJJIF, veulent faire entrer le jiu-jitsu aux Jeux olympiques. Parmi les grandes équipes figurent Gracie Barra, Gracie Humaitá, Carlson Gracie et Alliance.
Le système de ceintures adultes va du blanc au bleu, violet, marron et noir, et c'est l'un des plus lents des arts martiaux : atteindre la noire peut prendre une décennie. Certaines écoles ajoutent une ceinture verte entre la blanche et la bleue, en raison des longs délais entre les grades.
Curiosités
La première fédération de jiu-jitsu fut la Fédération de jiu-jitsu de Guanabara, qui reste la fédération régionale de Rio de Janeiro. Et l'arbitre de l'UFC 1, João Alberto Barreto, venait justement du monde du vale tudo de Rio, où il avait combattu dans « Heróis do Ringue ».
Chronologie
1914Maeda Mitsuyo arrive au Brésil.
1915Première démonstration de Maeda à Belém.
1925Ouverture de l'académie Gracie à Rio.
1951Hélio Gracie perd contre Kimura Masahiko au Maracanã.
1955Hélio Gracie et Valdemar Santana combattent près de quatre heures.
1959–60L'émission « Heróis do Ringue » popularise le vale tudo.
1993UFC 1 à Denver ; Royce Gracie gagne.
1994Premier Vale Tudo Japan ; Rickson Gracie gagne.
1996Premier championnat du monde de jiu-jitsu à Rio.