Um berimbau começa a tocar, a roda canta e dois capoeiristas entram no centro. Rodam, esquivam, lançam pontapés que passam a centímetros. A capoeira é luta, dança e música ao mesmo tempo — e nasceu da resistência.
Raízes africanas no Brasil colonial
A capoeira formou-se no Brasil colonial entre africanos escravizados e os seus descendentes, sobretudo na Bahia, no Rio de Janeiro e no Recife. A origem exata é discutida: não há documentos dos primeiros tempos, e quem praticava não deixava registos escritos. Há quem lhe procure raízes em jogos de Angola, como o engolo, uma dança de combate com pontapés. Outros sublinham que a arte, como a conhecemos, é uma criação brasileira, nascida da mistura de povos africanos diferentes.
As gravuras do pintor alemão Johann Moritz Rugendas, publicadas em 1835, mostram já a roda, o tambor e dois homens frente a frente. São das imagens mais antigas que se conhecem.
Capoeira na Bahia, segundo Rugendas (1835). Autor: Johann Moritz Rugendas · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Maltas e perseguição
No Rio de Janeiro do século XIX, a capoeira estava ligada a grupos de rua, as maltas, como os Nagoas e os Guaiamuns, que disputavam bairros e eram usados por políticos. Para as autoridades, capoeira era sinónimo de desordem. Depois da abolição da escravatura (1888), o Código Penal de 1890 proibiu-a expressamente e os capoeiristas eram presos e deportados. A arte sobreviveu em segredo, nas ruas, nos portos e nas festas da Bahia, e surgiram figuras quase lendárias como Besouro Mangangá.
Bimba e Pastinha
Em 1932, Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1899–1974) abriu em Salvador a primeira academia e criou a Capoeira Regional: mais rápida e objetiva, com sequências de ensino, golpes ligados e graduações. Em 1937 a sua escola recebeu reconhecimento oficial, e a capoeira começou a entrar em clubes, escolas e quartéis.
Em resposta, Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981) fundou em 1941 o Centro Esportivo de Capoeira Angola, defendendo a Capoeira Angola: mais baixa, mais lenta, mais ritual e mais próxima da tradição. Em 1964 publicou um livro sobre a sua capoeira. Muitos grupos atuais praticam uma síntese, chamada contemporânea.
«Jogar capoëra ou danse de la guerre», Rugendas. Autor: Johann Moritz Rugendas · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
A roda e a música
Na capoeira não se «luta», «joga-se». O jogo acontece dentro da roda, formada pelos praticantes, que batem palmas e cantam. A orquestra, a bateria, é comandada pelo berimbau, um arco musical de uma corda com uma cabaça; costuma haver três (gunga, médio e viola), acompanhados de pandeiro, atabaque, agogô e reco-reco. O ritmo tocado decide o tipo de jogo: lento e rasteiro ou rápido e alto. As cantigas, em português, contam histórias de mestres, de escravatura e de malandragem.
Roda de capoeira numa celebração do Património Imaterial. Autor: Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania · Licença: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Movimentos
A base é a ginga, um balanço contínuo de um lado para o outro que nunca deixa o corpo parado. Daí saem os pontapés circulares, como a meia-lua de compasso e a armada, os pontapés diretos, como a bênção, as rasteiras, as cabeçadas e as acrobacias, como o aú (a roda). As esquivas são tão importantes como os ataques: o bom capoeirista engana, faz o outro cair e mostra que podia ter acertado.
A capoeira hoje
Em 2008 a capoeira foi registada como património cultural do Brasil e, em 2014, a UNESCO classificou a roda de capoeira como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Muitos grupos usam cordas coloridas como graduação e fazem um batizado, a cerimónia em que o aluno recebe a primeira corda. Hoje joga-se em quase todos os países, e o português das cantigas viaja com ela.
Curiosidades
Os capoeiristas recebem um apelido, uma alcunha de roda. Mestre Bimba e Mestre Pastinha são, eles próprios, nomes de capoeira. E a maior parte dos alunos aprende primeiro a tocar e a cantar e só depois a jogar.
A berimbau starts to play, the circle sings and two capoeiristas step into the centre. They spin, dodge and throw kicks that pass within inches. Capoeira is fight, dance and music at once — and it was born of resistance.
African roots in colonial Brazil
Capoeira took shape in colonial Brazil among enslaved Africans and their descendants, mainly in Bahia, Rio de Janeiro and Recife. Its exact origin is debated: there are no early documents, and its practitioners left no written records. Some look for roots in Angolan games such as engolo, a kicking combat dance. Others stress that the art as we know it is a Brazilian creation, born from the mix of different African peoples.
The prints of the German painter Johann Moritz Rugendas, published in 1835, already show the circle, the drum and two men face to face. They are among the oldest known images.
Capoeira in Bahia, after Rugendas (1835). Author: Johann Moritz Rugendas · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Gangs and persecution
In 19th-century Rio de Janeiro, capoeira was linked to street gangs, the maltas, such as the Nagoas and the Guaiamuns, who fought over neighbourhoods and were used by politicians. For the authorities, capoeira meant disorder. After the abolition of slavery (1888), the Penal Code of 1890 explicitly banned it, and capoeiristas were jailed and deported. The art survived in secret, in streets, ports and Bahian festivals, and near-legendary figures such as Besouro Mangangá emerged.
Bimba and Pastinha
In 1932 Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1899–1974) opened the first academy in Salvador and created Capoeira Regional: faster and more direct, with teaching sequences, linked strikes and grades. In 1937 his school was officially recognised, and capoeira began to enter clubs, schools and barracks.
In response, Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981) founded the Capoeira Angola Sports Centre in 1941, defending Capoeira Angola: lower, slower, more ritual and closer to tradition. In 1964 he published a book on his capoeira. Many groups today practise a synthesis, called contemporary.
'Jogar capoëra ou danse de la guerre', Rugendas. Author: Johann Moritz Rugendas · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
The roda and the music
In capoeira you do not "fight", you "play". The game takes place inside the roda, a circle of practitioners who clap and sing. The orchestra, the bateria, is led by the berimbau, a one-string musical bow with a gourd; there are usually three (gunga, médio and viola), joined by pandeiro, atabaque, agogô and reco-reco. The rhythm played sets the type of game: slow and low, or fast and high. The songs, in Portuguese, tell of masters, slavery and street cunning.
A capoeira roda at an Intangible Heritage celebration. Author: Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania · Licence: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Movements
The base is the ginga, a constant side-to-side sway that never lets the body stand still. From it come circular kicks such as the meia-lua de compasso and the armada, straight kicks like the bênção, sweeps, head-butts and acrobatics such as the aú (cartwheel). Evasions matter as much as attacks: a good capoeirista deceives, makes the other fall and shows he could have landed.
Capoeira today
In 2008 capoeira was registered as Brazilian cultural heritage and, in 2014, UNESCO inscribed the capoeira circle as Intangible Cultural Heritage of Humanity. Many groups use coloured cords as grades and hold a batizado, the ceremony in which a student receives the first cord. It is now played in almost every country, and the Portuguese of the songs travels with it.
Curiosities
Capoeiristas receive an apelido, a roda nickname. Mestre Bimba and Mestre Pastinha are themselves capoeira names. And most students learn to play the instruments and sing before they learn to play the game.
Un berimbau empieza a sonar, la rueda canta y dos capoeiristas entran al centro. Giran, esquivan y lanzan patadas que pasan a centímetros. La capoeira es lucha, danza y música a la vez, y nació de la resistencia.
Raíces africanas en el Brasil colonial
La capoeira se formó en el Brasil colonial entre africanos esclavizados y sus descendientes, sobre todo en Bahía, Río de Janeiro y Recife. Su origen exacto se discute: no hay documentos de los primeros tiempos y quienes la practicaban no dejaron registros escritos. Algunos buscan raíces en juegos de Angola como el engolo, una danza de combate con patadas. Otros subrayan que el arte, tal como lo conocemos, es una creación brasileña, fruto de la mezcla de distintos pueblos africanos.
Los grabados del pintor alemán Johann Moritz Rugendas, publicados en 1835, ya muestran la rueda, el tambor y dos hombres frente a frente. Están entre las imágenes más antiguas que se conocen.
Capoeira en Bahía, según Rugendas (1835). Autor: Johann Moritz Rugendas · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Maltas y persecución
En el Río de Janeiro del siglo XIX, la capoeira estaba ligada a bandas callejeras, las maltas, como los Nagoas y los Guaiamuns, que se disputaban barrios y eran usadas por políticos. Para las autoridades, capoeira era sinónimo de desorden. Tras la abolición de la esclavitud (1888), el Código Penal de 1890 la prohibió expresamente y los capoeiristas eran encarcelados y deportados. El arte sobrevivió en secreto, en calles, puertos y fiestas de Bahía, y surgieron figuras casi legendarias como Besouro Mangangá.
Bimba y Pastinha
En 1932 Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1899–1974) abrió en Salvador la primera academia y creó la Capoeira Regional: más rápida y directa, con secuencias de enseñanza, golpes encadenados y graduaciones. En 1937 su escuela recibió reconocimiento oficial, y la capoeira empezó a entrar en clubes, escuelas y cuarteles.
En respuesta, Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981) fundó en 1941 el Centro Deportivo de Capoeira Angola y defendió la Capoeira Angola: más baja, más lenta, más ritual y más cercana a la tradición. En 1964 publicó un libro sobre su capoeira. Muchos grupos actuales practican una síntesis llamada contemporánea.
«Jogar capoëra ou danse de la guerre», Rugendas. Autor: Johann Moritz Rugendas · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La roda y la música
En la capoeira no se «lucha», se «juega». El juego ocurre dentro de la roda, el círculo de practicantes que aplauden y cantan. La orquesta, la bateria, la dirige el berimbau, un arco musical de una cuerda con calabaza; suele haber tres (gunga, médio y viola), con pandeiro, atabaque, agogô y reco-reco. El ritmo decide el tipo de juego: lento y bajo, o rápido y alto. Las canciones, en portugués, hablan de maestros, de esclavitud y de picardía callejera.
Roda de capoeira en una celebración del Patrimonio Inmaterial. Autor: Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania · Licencia: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Movimientos
La base es la ginga, un balanceo continuo de lado a lado que nunca deja el cuerpo quieto. De ella salen patadas circulares como la meia-lua de compasso y la armada, patadas rectas como la bênção, barridos, cabezazos y acrobacias como el aú (la rueda). Las esquivas importan tanto como los ataques: el buen capoeirista engaña, hace caer al otro y demuestra que podía haber golpeado.
La capoeira hoy
En 2008 la capoeira fue registrada como patrimonio cultural de Brasil y, en 2014, la UNESCO declaró la roda de capoeira Patrimonio Cultural Inmaterial de la Humanidad. Muchos grupos usan cuerdas de colores como graduación y celebran un batizado, la ceremonia en la que el alumno recibe su primera cuerda. Hoy se juega en casi todos los países, y el portugués de las canciones viaja con ella.
Curiosidades
Los capoeiristas reciben un apelido, un apodo de roda. Mestre Bimba y Mestre Pastinha son, ellos mismos, nombres de capoeira. Y la mayoría de alumnos aprende a tocar y cantar antes que a jugar.
Un berimbau se met à jouer, le cercle chante et deux capoeiristes entrent au centre. Ils tournent, esquivent et lancent des coups de pied qui passent à quelques centimètres. La capoeira est à la fois combat, danse et musique — et elle est née de la résistance.
Racines africaines au Brésil colonial
La capoeira s'est formée au Brésil colonial parmi les Africains réduits en esclavage et leurs descendants, surtout à Bahia, Rio de Janeiro et Recife. Son origine exacte est débattue : il n'existe pas de documents des premiers temps, et ses pratiquants n'ont pas laissé d'écrits. Certains lui cherchent des racines dans des jeux d'Angola comme l'engolo, une danse de combat aux pieds. D'autres soulignent que l'art, tel que nous le connaissons, est une création brésilienne, née du mélange de peuples africains différents.
Les gravures du peintre allemand Johann Moritz Rugendas, publiées en 1835, montrent déjà le cercle, le tambour et deux hommes face à face. Ce sont parmi les plus anciennes images connues.
La capoeira à Bahia, d'après Rugendas (1835). Auteur: Johann Moritz Rugendas · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Maltas et persécution
Dans le Rio de Janeiro du XIXe siècle, la capoeira était liée à des bandes de rue, les maltas, comme les Nagoas et les Guaiamuns, qui se disputaient les quartiers et servaient les politiciens. Pour les autorités, capoeira voulait dire désordre. Après l'abolition de l'esclavage (1888), le Code pénal de 1890 l'interdit explicitement, et les capoeiristes étaient emprisonnés et déportés. L'art survécut en secret, dans les rues, les ports et les fêtes de Bahia, et des figures presque légendaires comme Besouro Mangangá apparurent.
Bimba et Pastinha
En 1932, Mestre Bimba (Manuel dos Reis Machado, 1899–1974) ouvre à Salvador la première académie et crée la Capoeira Regional : plus rapide et plus directe, avec des séquences d'enseignement, des enchaînements et des grades. En 1937, son école est officiellement reconnue, et la capoeira entre dans les clubs, les écoles et les casernes.
En réponse, Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha, 1889–1981) fonde en 1941 le Centre sportif de capoeira Angola et défend la Capoeira Angola : plus basse, plus lente, plus rituelle et plus proche de la tradition. En 1964, il publie un livre sur sa capoeira. Beaucoup de groupes actuels pratiquent une synthèse dite contemporaine.
« Jogar capoëra ou danse de la guerre », Rugendas. Auteur: Johann Moritz Rugendas · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La roda et la musique
En capoeira, on ne « se bat » pas, on « joue ». Le jeu se déroule dans la roda, le cercle de pratiquants qui frappent des mains et chantent. L'orchestre, la bateria, est mené par le berimbau, un arc musical à une corde avec une calebasse ; il y en a souvent trois (gunga, médio et viola), avec pandeiro, atabaque, agogô et reco-reco. Le rythme joué fixe le type de jeu : lent et au sol, ou rapide et haut. Les chants, en portugais, parlent de maîtres, d'esclavage et de ruse de la rue.
Roda de capoeira lors d'une célébration du patrimoine immatériel. Auteur: Secretaria Especial da Cultura do Ministério da Cidadania · Licence: CC BY 2.0 · Wikimedia Commons
Mouvements
La base est la ginga, un balancement continu d'un côté à l'autre qui ne laisse jamais le corps immobile. De là partent les coups de pied circulaires comme la meia-lua de compasso et l'armada, les coups directs comme la bênção, les balayages, les coups de tête et les acrobaties comme l'aú (la roue). Les esquives comptent autant que les attaques : le bon capoeiriste trompe, fait tomber l'autre et montre qu'il aurait pu toucher.
La capoeira aujourd'hui
En 2008, la capoeira a été enregistrée au patrimoine culturel du Brésil et, en 2014, l'UNESCO a inscrit la roda de capoeira au patrimoine culturel immatériel de l'humanité. Beaucoup de groupes utilisent des cordes de couleur comme grades et organisent un batizado, la cérémonie où l'élève reçoit sa première corde. On la joue aujourd'hui dans presque tous les pays, et le portugais des chants voyage avec elle.
Curiosités
Les capoeiristes reçoivent un apelido, un surnom de roda. Mestre Bimba et Mestre Pastinha sont eux-mêmes des noms de capoeira. Et la plupart des élèves apprennent à jouer des instruments et à chanter avant de jouer dans la roda.