Num ginásio, dois praticantes com máscara e espadas longas de aço trocam golpes seguindo um manuscrito do início do século XV. Na sala ao lado, dois esgrimistas olímpicos ligados a fios elétricos tocam-se com floretes. Separam-nos seis séculos, mas descendem da mesma família.
Os livros de luta
A Europa tinha artes marciais próprias, ensinadas por mestres que deixaram livros ilustrados, os Fechtbücher («livros de esgrima»). O mais antigo que se conhece é o manuscrito I.33, de cerca de 1300, também chamado «Fechtbuch da Torre». Mostra um método de espada e broquel (um escudo pequeno de mão) diferente de quase tudo o que veio depois, e as figuras são um padre, um aluno e uma mulher chamada Walpurgis.
A escola alemã
Na Alemanha, a escola de Johannes Liechtenauer foi registada em versos a partir de 1389, num manuscrito associado a Hanko Döbringer. Os versos eram curtos e enigmáticos, e outros mestres escreveram comentários para os explicar. Entre os seus seguidores estão Hans Talhoffer e Paulus Kal, cujos livros mostram espada longa, luta corpo a corpo (Ringen), punhal e até duelos judiciais.
No século XVI apareceram grandes compêndios, alguns já impressos: os de Paulus Hector Mair, nos anos 1540, e os de Joachim Meyer, nos anos 1570. Meyer era cuteleiro e «esgrimista livre» (Freifechter) em Estrasburgo. Em 1570 publicou um tratado de várias armas que o tornou famoso, mas que o deixou cheio de dívidas.
Página de um Fechtbuch de Hans Talhoffer (século XV). Autor: Hans Talhoffer · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Fiore e a escola italiana
Fiore dei Liberi nasceu por volta de 1350 em Cividale del Friuli e morreu depois de 1409. Era cavaleiro, diplomata e mestre de esgrima itinerante. No início do século XV escreveu o «Flor da Batalha» (Fior di Battaglia), que cobre luta sem armas, punhal, espada de uma e de duas mãos, armas de haste, combate de armadura e combate a cavalo. Sobrevivem várias versões. A mais curta é datada de 1409, e duas estão dedicadas a Niccolò III d'Este, marquês de Ferrara. Uma das cópias está hoje no Museu Getty, em Los Angeles.
O método de Fiore organiza as técnicas em figuras com papéis: o mestre mostra a guarda ou a técnica, e o «contrário» mostra como a contrariar. Mais tarde, a escola de Bolonha, com Antonio Manciolino e Achille Marozzo, e mestres como Ridolfo Capo Ferro (1610) aproximaram a esgrima da espada ropera e da estocada.
Página do tratado de Fiore dei Liberi (c. 1404). Autor: Fiore Furlan dei Liberi da Premariacco (Italian, about 1340/1350 - before 1450) (1340 - 14 · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
A destreza ibérica
Na Península Ibérica, a destreza tratava o combate com espada como geometria. O seu fundador, Jerónimo Sánchez de Carranza, publicou em 1582 e é chamado «o pai da destreza». Luis Pacheco de Narváez desenvolveu-a em obras de 1600 e 1632. Em Portugal, o jogo do pau é um parente vivo destas tradições de combate com arma.
Da rua à pista
Com o fim das armaduras, a espada tornou-se arma civil e de duelo. No século XVIII, a escola francesa tornou-se o padrão da Europa ocidental. Domenico Angelo, um italiano que ensinava em Inglaterra, chegou a publicar o seu L'École des Armes (1763) em francês, e o texto foi escolhido para o verbete «Escrime» da Enciclopédia de Diderot.
Para treinar com segurança surgiu o florete, com regras de prioridade: quem ataca primeiro tem direito ao toque. A espada (épée) manteve o espírito do duelo, e vale tocar em todo o corpo. O sabre veio da cavalaria e permite golpes de corte. As três armas estão nos Jogos Olímpicos desde 1896. Em Paris 2024, a esgrima disputou-se no Grand Palais.
Erwann Le Péchoux contra Gerek Meinhardt no Master de Florete de Melun, 2014. Autor: Marie-Lan Nguyen · Licença: CC BY 3.0 · Wikimedia Commons
O renascimento do HEMA
Ainda no século XIX houve quem quisesse recuperar as armas antigas. O soldado e escritor inglês Alfred Hutton, que aprendeu esgrima na escola fundada por Angelo, publicou em 1889 Cold Steel, um tratado de sabre militar. Nos anos 1890 fez demonstrações com Egerton Castle de sistemas reconstruídos, como os de George Silver e de Marozzo.
A partir dos anos 1990, grupos de investigadores e praticantes passaram a reconstruir as artes antigas diretamente a partir dos tratados. É o HEMA (Historical European Martial Arts, artes marciais históricas europeias). Hoje treina-se com simuladores de aço ou de nylon, máscara e proteções, e há torneios de espada longa, sabre e rapieira em vários países.
Esquema simplificado: muitos estilos têm mais de uma raiz.
Curiosidades
Nas duas últimas sequências do I.33 é Walpurgis quem lidera, e acaba com uma pancada de escudo e um golpe na cabeça do padre, o mestre de todo o manuscrito. Desde finais do século XV existiam na Alemanha «irmandades» de esgrimistas (Fechtbruderschaften) que organizavam o ensino. E desde finais dos anos 1990 as traduções dos tratados começaram a aparecer impressas e na internet, o que permite a qualquer praticante de HEMA estudar diretamente as fontes.
Linha do tempo
c. 1300Manuscrito I.33, o mais antigo Fechtbuch conhecido.
1389Manuscrito de Döbringer: escola alemã de Liechtenauer.
c. 1404Fiore dei Liberi escreve o «Flor da Batalha».
1570Joachim Meyer publica o seu tratado em Estrasburgo.
1582Carranza publica a base da destreza espanhola.
1763Domenico Angelo publica L'École des Armes.
1889Alfred Hutton publica Cold Steel.
1896Esgrima nos primeiros Jogos Olímpicos modernos.
In a gym, two masked practitioners with steel longswords exchange blows following a manuscript from the early 15th century. In the next room, two Olympic fencers wired to an electric scoring box touch each other with foils. Six centuries separate them, but they come from the same family.
The fight books
Europe had martial arts of its own, taught by masters who left illustrated books, the Fechtbücher ("fencing books"). The oldest known is the I.33 manuscript, from around 1300, also called the "Tower Fechtbuch". It shows a sword-and-buckler method (a buckler is a small hand shield) unlike almost everything that came later, and its figures are a priest, a scholar and a woman named Walpurgis.
The German school
In Germany, the school of Johannes Liechtenauer was recorded in verse from 1389 onwards, in a manuscript associated with Hanko Döbringer. The verses were short and cryptic, and other masters wrote glosses to explain them. His followers included Hans Talhoffer and Paulus Kal, whose books show longsword, wrestling (Ringen), dagger and even judicial duels.
The 16th century brought large compendia, some of them printed: those of Paulus Hector Mair in the 1540s and of Joachim Meyer in the 1570s. Meyer was a cutler and a "free fencer" (Freifechter) in Strasbourg. In 1570 he published a multi-weapon treatise that made him famous but left him deep in debt.
A page from a Fechtbuch by Hans Talhoffer (15th century). Author: Hans Talhoffer · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Fiore and the Italian school
Fiore dei Liberi was born around 1350 in Cividale del Friuli and died after 1409. He was a knight, diplomat and itinerant fencing master. In the early 15th century he wrote "The Flower of Battle" (Fior di Battaglia), which covers unarmed grappling, dagger, one- and two-handed sword, pole weapons, armoured combat and mounted combat. Several versions survive. The briefest is dated 1409, and two are dedicated to Niccolò III d'Este, Marquis of Ferrara. One copy is now in the Getty Museum in Los Angeles.
Fiore's method arranges techniques in figures with roles: the master shows the guard or technique, and the "contrary" shows how to counter it. Later the Bolognese school, with Antonio Manciolino and Achille Marozzo, and masters such as Ridolfo Capo Ferro (1610) moved fencing towards the rapier and the thrust.
A page from Fiore dei Liberi's treatise (c. 1404). Author: Fiore Furlan dei Liberi da Premariacco (Italian, about 1340/1350 - before 1450) (1340 - 14 · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Iberian destreza
In the Iberian Peninsula, destreza treated sword fighting as geometry. Its founder, Jerónimo Sánchez de Carranza, published in 1582 and is called "the father of destreza". Luis Pacheco de Narváez developed it in works of 1600 and 1632. In Portugal, jogo do pau is a living relative of these armed traditions.
From the street to the piste
When armour disappeared, the sword became a civilian and duelling weapon. In the 18th century the French school became the Western European standard. Domenico Angelo, an Italian teaching in England, even published his L'École des Armes (1763) in French, and the text was chosen for the "Escrime" entry of Diderot's Encyclopédie.
For safe training the foil appeared, with right-of-way rules: whoever attacks first has priority. The épée kept the spirit of the duel, and the whole body is a target. The sabre came from the cavalry and allows cutting blows. All three weapons have been at the Olympics since 1896. At Paris 2024, fencing was held in the Grand Palais.
Erwann Le Péchoux v Gerek Meinhardt at the Melun foil Masters, 2014. Author: Marie-Lan Nguyen · Licence: CC BY 3.0 · Wikimedia Commons
The HEMA revival
As early as the 19th century some wanted to bring old weapons back. The English soldier and writer Alfred Hutton, who learned fencing at the school founded by Angelo, published Cold Steel, a treatise on the military sabre, in 1889. In the 1890s he gave demonstrations with Egerton Castle of reconstructed systems, such as those of George Silver and Marozzo.
From the 1990s, groups of researchers and practitioners began rebuilding the old arts directly from the treatises. This is HEMA (Historical European Martial Arts). Today people train with steel or nylon simulators, masks and protective gear, and there are longsword, sabre and rapier tournaments in many countries.
Simplified chart: many styles have more than one root.
Curiosities
In the last two sequences of I.33 it is Walpurgis who leads, finishing with a shield strike and a blow to the head of the priest, the master of the whole manuscript. From the late 15th century, Germany had fencing "brotherhoods" (Fechtbruderschaften) that organised teaching. And since the late 1990s translations of the treatises have appeared in print and online, so any HEMA practitioner can study the sources directly.
Timeline
c. 1300The I.33 manuscript, the oldest known Fechtbuch.
1389Döbringer manuscript: Liechtenauer's German school.
c. 1404Fiore dei Liberi writes the Flower of Battle.
1570Joachim Meyer publishes his treatise in Strasbourg.
1582Carranza publishes the basis of Spanish destreza.
1763Domenico Angelo publishes L'École des Armes.
1889Alfred Hutton publishes Cold Steel.
1896Fencing at the first modern Olympics.
1990sThe HEMA reconstruction movement emerges.
2024Fencing at the Paris Games, in the Grand Palais.
En un gimnasio, dos practicantes con careta y espadas largas de acero intercambian golpes siguiendo un manuscrito de principios del siglo XV. En la sala de al lado, dos esgrimistas olímpicos conectados a cables eléctricos se tocan con floretes. Los separan seis siglos, pero descienden de la misma familia.
Los libros de lucha
Europa tenía artes marciales propias, enseñadas por maestros que dejaron libros ilustrados, los Fechtbücher («libros de esgrima»). El más antiguo conocido es el manuscrito I.33, de hacia 1300, también llamado «Fechtbuch de la Torre». Muestra un método de espada y broquel (un escudo pequeño de mano) distinto de casi todo lo posterior, y sus figuras son un sacerdote, un alumno y una mujer llamada Walpurgis.
La escuela alemana
En Alemania, la escuela de Johannes Liechtenauer quedó registrada en versos a partir de 1389, en un manuscrito asociado a Hanko Döbringer. Los versos eran breves y enigmáticos, y otros maestros escribieron glosas para explicarlos. Entre sus seguidores están Hans Talhoffer y Paulus Kal, cuyos libros muestran espada larga, lucha (Ringen), daga e incluso duelos judiciales.
En el siglo XVI aparecieron grandes compendios, algunos ya impresos: los de Paulus Hector Mair, en los años 1540, y los de Joachim Meyer, en los años 1570. Meyer era cuchillero y «esgrimista libre» (Freifechter) en Estrasburgo. En 1570 publicó un tratado de varias armas que lo hizo famoso, pero que lo dejó lleno de deudas.
Página de un Fechtbuch de Hans Talhoffer (siglo XV). Autor: Hans Talhoffer · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Fiore y la escuela italiana
Fiore dei Liberi nació hacia 1350 en Cividale del Friuli y murió después de 1409. Fue caballero, diplomático y maestro de esgrima itinerante. A principios del siglo XV escribió la «Flor de la Batalla» (Fior di Battaglia), que cubre lucha sin armas, daga, espada de una y dos manos, armas de asta, combate con armadura y combate a caballo. Se conservan varias versiones. La más breve está fechada en 1409, y dos están dedicadas a Niccolò III d'Este, marqués de Ferrara. Una de las copias está hoy en el Museo Getty de Los Ángeles.
El método de Fiore organiza las técnicas en figuras con papeles: el maestro muestra la guardia o la técnica, y el «contrario» muestra cómo contrarrestarla. Más tarde, la escuela de Bolonia, con Antonio Manciolino y Achille Marozzo, y maestros como Ridolfo Capo Ferro (1610) acercaron la esgrima al estoque ropero y a la estocada.
Página del tratado de Fiore dei Liberi (c. 1404). Autor: Fiore Furlan dei Liberi da Premariacco (Italian, about 1340/1350 - before 1450) (1340 - 14 · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La destreza ibérica
En la Península Ibérica, la destreza trataba el combate con espada como geometría. Su fundador, Jerónimo Sánchez de Carranza, publicó en 1582 y es llamado «el padre de la destreza». Luis Pacheco de Narváez la desarrolló en obras de 1600 y 1632. En Portugal, el jogo do pau es un pariente vivo de estas tradiciones de combate armado.
De la calle a la pista
Con el fin de las armaduras, la espada se convirtió en arma civil y de duelo. En el siglo XVIII la escuela francesa se volvió el estándar de Europa occidental. Domenico Angelo, un italiano que enseñaba en Inglaterra, llegó a publicar su L'École des Armes (1763) en francés, y el texto fue elegido para la entrada «Escrime» de la Enciclopedia de Diderot.
Para entrenar con seguridad surgió el florete, con reglas de prioridad: quien ataca primero tiene derecho al tocado. La espada mantuvo el espíritu del duelo, y vale tocar todo el cuerpo. El sable vino de la caballería y permite golpes de corte. Las tres armas están en los Juegos Olímpicos desde 1896. En París 2024 la esgrima se disputó en el Grand Palais.
Erwann Le Péchoux contra Gerek Meinhardt en el Master de Florete de Melun, 2014. Autor: Marie-Lan Nguyen · Licencia: CC BY 3.0 · Wikimedia Commons
El renacimiento del HEMA
Ya en el siglo XIX hubo quien quiso recuperar las armas antiguas. El soldado y escritor inglés Alfred Hutton, que aprendió esgrima en la escuela fundada por Angelo, publicó en 1889 Cold Steel, un tratado de sable militar. En los años 1890 hizo demostraciones con Egerton Castle de sistemas reconstruidos, como los de George Silver y Marozzo.
Desde los años 1990, grupos de investigadores y practicantes empezaron a reconstruir las artes antiguas directamente a partir de los tratados. Es el HEMA (Historical European Martial Arts, artes marciales históricas europeas). Hoy se entrena con simuladores de acero o nailon, careta y protecciones, y hay torneos de espada larga, sable y ropera en muchos países.
Esquema simplificado: muchos estilos tienen más de una raíz.
Curiosidades
En las dos últimas secuencias del I.33 es Walpurgis quien lleva la iniciativa, y termina con un golpe de escudo y otro en la cabeza del sacerdote, el maestro de todo el manuscrito. Desde finales del siglo XV existían en Alemania «hermandades» de esgrimistas (Fechtbruderschaften) que organizaban la enseñanza. Y desde finales de los años 1990 las traducciones de los tratados aparecen impresas y en internet, lo que permite a cualquier practicante de HEMA estudiar directamente las fuentes.
Cronología
c. 1300Manuscrito I.33, el Fechtbuch más antiguo conocido.
1389Manuscrito de Döbringer: escuela alemana de Liechtenauer.
c. 1404Fiore dei Liberi escribe la «Flor de la batalla».
1570Joachim Meyer publica su tratado en Estrasburgo.
1582Carranza publica la base de la destreza española.
1763Domenico Angelo publica L'École des Armes.
1889Alfred Hutton publica Cold Steel.
1896Esgrima en los primeros Juegos Olímpicos modernos.
1990sNace el movimiento HEMA de reconstrucción.
2024Esgrima en los Juegos de París, en el Grand Palais.
Dans un gymnase, deux pratiquants masqués, armés d'épées longues en acier, échangent des coups d'après un manuscrit du début du XVe siècle. Dans la salle voisine, deux escrimeurs olympiques reliés à des fils électriques se touchent au fleuret. Six siècles les séparent, mais ils sont de la même famille.
Les livres de combat
L'Europe avait ses propres arts martiaux, enseignés par des maîtres qui ont laissé des livres illustrés, les Fechtbücher (« livres d'escrime »). Le plus ancien connu est le manuscrit I.33, vers 1300, aussi appelé « Fechtbuch de la Tour ». Il présente une méthode d'épée et bocle (un petit bouclier de poing) différente de presque tout ce qui suivit, et ses personnages sont un prêtre, un élève et une femme nommée Walpurgis.
L'école allemande
En Allemagne, l'école de Johannes Liechtenauer fut consignée en vers à partir de 1389, dans un manuscrit associé à Hanko Döbringer. Les vers étaient courts et énigmatiques, et d'autres maîtres écrivirent des gloses pour les expliquer. Parmi ses héritiers figurent Hans Talhoffer et Paulus Kal, dont les livres montrent l'épée longue, la lutte (Ringen), la dague et même les duels judiciaires.
Le XVIe siècle vit paraître de grands recueils, certains imprimés : ceux de Paulus Hector Mair dans les années 1540 et de Joachim Meyer dans les années 1570. Meyer était coutelier et « escrimeur libre » (Freifechter) à Strasbourg. En 1570, il publia un traité multi-armes qui le rendit célèbre mais le laissa lourdement endetté.
Page d'un Fechtbuch de Hans Talhoffer (XVe siècle). Auteur: Hans Talhoffer · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Fiore et l'école italienne
Fiore dei Liberi naquit vers 1350 à Cividale del Friuli et mourut après 1409. Il était chevalier, diplomate et maître d'armes itinérant. Au début du XVe siècle, il écrivit « La Fleur de la bataille » (Fior di Battaglia), qui couvre la lutte à mains nues, la dague, l'épée à une et à deux mains, les armes d'hast, le combat en armure et le combat à cheval. Plusieurs versions subsistent. La plus brève est datée de 1409, et deux sont dédiées à Niccolò III d'Este, marquis de Ferrare. L'une des copies se trouve aujourd'hui au musée Getty de Los Angeles.
La méthode de Fiore organise les techniques en figures aux rôles définis : le maître montre la garde ou la technique, et le « contraire » montre comment la contrer. Plus tard, l'école bolonaise, avec Antonio Manciolino et Achille Marozzo, puis des maîtres comme Ridolfo Capo Ferro (1610) orientèrent l'escrime vers la rapière et l'estoc.
Page du traité de Fiore dei Liberi (v. 1404). Auteur: Fiore Furlan dei Liberi da Premariacco (Italian, about 1340/1350 - before 1450) (1340 - 14 · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La destreza ibérique
Dans la péninsule Ibérique, la destreza traitait le combat à l'épée comme une géométrie. Son fondateur, Jerónimo Sánchez de Carranza, publia en 1582 et est appelé « le père de la destreza ». Luis Pacheco de Narváez la développa dans des ouvrages de 1600 et 1632. Au Portugal, le jogo do pau est un parent vivant de ces traditions armées.
De la rue à la piste
Avec la fin des armures, l'épée devint une arme civile et de duel. Au XVIIIe siècle, l'école française devint la norme en Europe occidentale. Domenico Angelo, un Italien enseignant en Angleterre, publia même son École des Armes (1763) en français, et le texte fut choisi pour l'article « Escrime » de l'Encyclopédie de Diderot.
Pour s'entraîner sans danger apparut le fleuret, avec des règles de priorité : celui qui attaque le premier a la priorité. L'épée garda l'esprit du duel, et tout le corps est une cible. Le sabre vient de la cavalerie et autorise les coups de taille. Les trois armes sont aux Jeux olympiques depuis 1896. À Paris 2024, l'escrime s'est disputée au Grand Palais.
Erwann Le Péchoux contre Gerek Meinhardt au Master de fleuret de Melun, 2014. Auteur: Marie-Lan Nguyen · Licence: CC BY 3.0 · Wikimedia Commons
Le renouveau des AMHE
Dès le XIXe siècle, certains voulurent faire revivre les armes anciennes. Le soldat et écrivain anglais Alfred Hutton, qui avait appris l'escrime dans l'école fondée par Angelo, publia en 1889 Cold Steel, un traité de sabre militaire. Dans les années 1890, il donna avec Egerton Castle des démonstrations de systèmes reconstitués, comme ceux de George Silver et de Marozzo.
À partir des années 1990, des groupes de chercheurs et de pratiquants entreprirent de reconstituer les arts anciens directement à partir des traités. Ce sont les AMHE (arts martiaux historiques européens, HEMA en anglais). On s'entraîne aujourd'hui avec des simulateurs en acier ou en nylon, masque et protections, et il existe des tournois d'épée longue, de sabre et de rapière dans de nombreux pays.
Schéma simplifié : beaucoup de styles ont plusieurs racines.
Curiosités
Dans les deux dernières séquences de l'I.33, c'est Walpurgis qui mène, et elle termine par un coup de bouclier et un coup à la tête du prêtre, le maître de tout le manuscrit. Dès la fin du XVe siècle, l'Allemagne comptait des « confréries » d'escrimeurs (Fechtbruderschaften) qui organisaient l'enseignement. Et depuis la fin des années 1990, les traductions des traités paraissent en version imprimée et en ligne, ce qui permet à tout pratiquant d'étudier directement les sources.
Chronologie
c. 1300Manuscrit I.33, le plus ancien Fechtbuch connu.
1389Manuscrit Döbringer : école allemande de Liechtenauer.
c. 1404Fiore dei Liberi écrit la « Fleur des batailles ».
1570Joachim Meyer publie son traité à Strasbourg.
1582Carranza publie les bases de la destreza espagnole.
1763Domenico Angelo publie L'École des Armes.
1889Alfred Hutton publie Cold Steel.
1896Escrime aux premiers Jeux olympiques modernes.
1990sNaissance du mouvement AMHE de reconstitution.
Page du traité de Fiore dei Liberi (v. 1404). ↗ — Auteur: Fiore Furlan dei Liberi da Premariacco (Italian, about 1340/1350 - before 1450) (1340 - 14; Licence: Domínio público / Public domain