O judo, o jiu-jitsu brasileiro, o sambo e boa parte do MMA descendem de uma mesma raiz: as escolas de luta corpo a corpo dos samurais, a que o Japão chamou jūjutsu — «a técnica da suavidade». Esta é a história de como um professor franzino transformou essa herança num desporto que hoje se pratica em todo o mundo.
A luta do guerreiro desarmado
No Japão feudal, um guerreiro podia perder a espada no meio da batalha. Para esse momento existiam técnicas de agarrar, projetar, imobilizar e torcer articulações, ensinadas dentro de escolas fechadas, os ryū. Durante o período Edo (1603–1868), com o país em paz, estas escolas multiplicaram-se: cada uma tinha os seus segredos, os seus rolos de pergaminho e a sua linhagem de mestres. A Takenouchi-ryū, fundada em 1532, é normalmente apontada como uma das mais antigas.
A palavra «suavidade» não quer dizer fraqueza. A ideia era ceder à força do adversário e usá-la contra ele, em vez de a enfrentar de frente.
A queda dos samurais
Com a Restauração Meiji, em 1868, o Japão abriu-se ao Ocidente e aboliu a classe samurai. As velhas escolas perderam alunos e prestígio; o jūjutsu passou a ser visto como coisa antiquada, por vezes associada a lutas de rua e a espetáculos.
Kanō Jigorō (1860–1938), fundador do judo. Autor: Fotógrafo desconhecido / unknown (retouched: Michael Hultström) · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Kanō Jigorō e o Kōdōkan
Foi neste cenário que um jovem estudante de Tóquio, Jigorō Kanō (1860–1938), decidiu aprender jūjutsu para ganhar confiança. Treinou primeiro na Tenjin Shin'yō-ryū, forte em imobilizações e golpes, e depois na Kitō-ryū, especialista em projeções. Em 1882, com poucos alunos e um espaço emprestado num templo budista, abriu o seu próprio centro: o Kōdōkan.
Kanō retirou as técnicas mais perigosas da prática livre, organizou um método de ensino e deu-lhe um nome novo: jūdō, «o caminho da suavidade». Trocar jutsu (técnica) por dō (caminho) não era um pormenor: para ele, o judo era sobretudo educação física e moral. Resumiu-o em duas máximas — o máximo de eficácia com o mínimo de esforço, e prosperidade mútua.
A grande inovação foi o randori, o combate livre com um parceiro que resiste. Em vez de repetir apenas formas pré-combinadas, os alunos testavam as técnicas a sério, em segurança. O sistema de graus kyū e dan, com o cinto negro, também nasceu no Kōdōkan.
Ramos que nasceram do tronco
Nas escolas superiores japonesas desenvolveu-se o kosen judo, com regras que favoreciam a luta no chão. Noutra linha, Hironori Ōtsuka juntou a sua Shindō Yōshin-ryū ao karaté de Funakoshi e criou o Wadō-ryū. Em Londres, por volta de 1899, Edward Barton-Wright misturou jūjutsu, boxe, savate e luta com bengala no Bartitsu.
Esquema simplificado: muitos estilos têm mais de uma raiz.
O judo vai pelo mundo
Kanō enviou alunos para o estrangeiro. Um deles, Mitsuyo Maeda, saiu do Japão em 1904 e passou anos a combater nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina. Fixou-se em Belém do Pará, no Brasil, onde ensinou o jovem Carlos Gracie. A família Gracie adaptou o que aprendeu à luta no chão e a combates sem regras — o vale-tudo — e daí nasceu o jiu-jitsu brasileiro, que muito mais tarde mostraria a sua força no primeiro UFC, em 1993.
Maeda Mitsuyo (c. 1910), que levou o judo ao Brasil. Autor: Autor desconhecido / unknown · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Na União Soviética, Vasili Oshchepkov, que estudou no Kōdōkan, levou o judo para Moscovo; a mistura com lutas tradicionais da região deu origem ao sambo, reconhecido oficialmente em 1938.
O próprio Kanō tornou-se, em 1909, o primeiro membro asiático do Comité Olímpico Internacional. O sonho cumpriu-se em Tóquio 1964, quando o judo entrou nos Jogos — e o holandês Anton Geesink, ao vencer a categoria aberta, provou que a arte já não era só japonesa.
Técnicas: projetar, imobilizar, golpear
O judo divide as suas técnicas (waza) em três famílias. As nage-waza são projeções: as tachi-waza fazem-se de pé, enquanto nas sutemi-waza, as projeções "de sacrifício", quem projeta abdica de propósito do próprio equilíbrio para levar o parceiro ao chão. As katame-waza são as técnicas de controlo: imobilizações que prendem o adversário de costas (osaekomi-waza), estrangulamentos (shime-waza) e chaves articulares (kansetsu-waza). A terceira família, as atemi-waza, golpes em pontos vitais, sobrevive apenas nos kata, as formas pré-combinadas.
Nada disto funciona sem o ukemi, a arte de cair em segurança, que ocupa parte de cada treino. As projeções treinam-se com uchi-komi, entradas repetidas que param mesmo antes de projetar. O clássico Gokyo, os "cinco ensinamentos", agrupa as projeções pela dificuldade da queda, das mais suaves às mais exigentes.
Jigorō Kanō e Kyūzō Mifune. Autor: ベースボール・マガジン社 (Baseball Magazine) · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Poucos encarnaram tão bem este lado técnico como Kyūzō Mifune, muitas vezes apontado como o maior técnico do judo depois do próprio Kanō. Criou o nage-waza-ura-no-kata, um kata de contra-projeções.
O judo hoje
O desporto é regido pela Federação Internacional de Judo (IJF), fundada em 1951, que reúne uniões continentais em África, nas Américas, na Ásia, na Europa e na Oceânia, cada uma formada por associações nacionais. O COI decidiu em Roma, em 1960, incluir o judo nos Jogos; o judo feminino foi modalidade de demonstração em 1988 e passou a dar medalhas em Barcelona 1992.
O Kōdōkan continua a existir: hoje é um edifício de oito andares em Tóquio e mantém-se como sede da comunidade mundial do judo. Entre os campeões modernos destaca-se o francês Teddy Riner, o único judoca a ganhar doze medalhas de ouro em Campeonatos do Mundo, com três títulos olímpicos nos pesos pesados.
O Kōdōkan em 1937. Autor: Kodansha · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Curiosidades
Quem pratica é um jūdōka e o uniforme chama-se jūdōgi. Os primeiros casacos tinham mangas curtas; o judogi de mangas compridas foi adotado em 1906.
O judogi azul, usado hoje para árbitros e público distinguirem os dois lutadores, foi proposto por Anton Geesink em 1986. No Japão ambos continuam de branco, e um deles prende uma faixa vermelha, a lembrar a bandeira nacional.
Nos Estados Unidos, o "freestyle judo" mantém técnicas que as regras da IJF retiraram.
Muitos lutadores de MMA vieram do judo, da medalhada olímpica Ronda Rousey a Khabib Nurmagomedov.
Linha do tempo
1532Fundação da Takenouchi-ryū, uma das escolas de jūjutsu mais antigas.
1868Restauração Meiji: fim da classe samurai.
1882Kanō Jigorō abre o Kōdōkan em Tóquio.
1899Bartitsu em Londres.
1904Maeda Mitsuyo parte para o estrangeiro.
1906Adotado o judogi de mangas compridas.
1909Kanō, primeiro membro asiático do COI.
1938Sambo reconhecido na URSS; morre Kanō.
1951Fundada a Federação Internacional de Judo.
1964Judo estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
1992Judo feminino dá medalhas olímpicas em Barcelona.
1993Primeiro UFC: o jiu-jitsu brasileiro em destaque.
Judo, Brazilian jiu-jitsu, sambo and much of MMA share one root: the grappling schools of the samurai, which Japan called jūjutsu — "the gentle technique". This is the story of how a slightly built teacher turned that heritage into a sport practised all over the world.
Fighting without a sword
In feudal Japan a warrior could lose his sword mid-battle. For that moment there were techniques for gripping, throwing, pinning and locking joints, taught inside closed schools called ryū. During the peaceful Edo period (1603–1868) these schools multiplied, each with its own secrets, scrolls and line of masters. Takenouchi-ryū, founded in 1532, is usually counted among the oldest.
"Gentle" did not mean weak. The idea was to give way to an opponent's force and turn it against him instead of meeting it head-on.
The end of the samurai
With the Meiji Restoration of 1868, Japan opened to the West and abolished the samurai class. The old schools lost students and standing; jūjutsu came to look old-fashioned, sometimes linked to street brawls and sideshows.
Kanō Jigorō (1860–1938), founder of judo. Author: Fotógrafo desconhecido / unknown (retouched: Michael Hultström) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Kanō Jigorō and the Kōdōkan
Into this world came a young Tokyo student, Jigorō Kanō (1860–1938), who took up jūjutsu to build his confidence. He trained first in Tenjin Shin'yō-ryū, strong on pins and strikes, then in Kitō-ryū, a throwing specialist. In 1882, with a handful of students and borrowed space in a Buddhist temple, he opened his own centre: the Kōdōkan.
Kanō removed the most dangerous techniques from free practice, built a teaching method and gave it a new name: jūdō, "the gentle way". Swapping jutsu (technique) for dō (way) mattered: for him judo was above all physical and moral education. He summed it up in two maxims — maximum efficiency with minimum effort, and mutual welfare.
His big innovation was randori, free sparring against a resisting partner. Rather than only repeating set forms, students tested techniques for real, safely. The kyū and dan grades, and the black belt, were also born at the Kōdōkan.
Branches from the trunk
Japan's higher schools developed kosen judo, with rules that rewarded groundwork. Elsewhere, Hironori Ōtsuka blended his Shindō Yōshin-ryū with Funakoshi's karate to create Wadō-ryū. In London around 1899, Edward Barton-Wright mixed jūjutsu, boxing, savate and stick fighting into Bartitsu.
Simplified chart: many styles have more than one root.
Judo goes global
Kanō sent students abroad. One of them, Mitsuyo Maeda, left Japan in 1904 and spent years fighting across the United States, Europe and Latin America. He settled in Belém, Brazil, where he taught a young Carlos Gracie. The Gracie family adapted what they learned to ground fighting and no-rules bouts — vale tudo — and so Brazilian jiu-jitsu was born, showing its strength much later at the first UFC in 1993.
Maeda Mitsuyo (c. 1910), who took judo to Brazil. Author: Autor desconhecido / unknown · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
In the Soviet Union, Vasili Oshchepkov, a Kōdōkan student, brought judo to Moscow; blended with the region's folk wrestling it became sambo, officially recognised in 1938.
In 1909 Kanō himself became the first Asian member of the International Olympic Committee. The dream came true at Tokyo 1964, when judo joined the Games — and Dutchman Anton Geesink, winning the open category, proved the art no longer belonged to Japan alone.
Techniques: throwing, holding, striking
Judo sorts its techniques (waza) into three families. Nage-waza are throws: tachi-waza are done standing, while in sutemi-waza, the "sacrifice" throws, the thrower deliberately gives up his own balance to take the partner down. Katame-waza are the grappling techniques: pins that hold the opponent on his back (osaekomi-waza), strangles (shime-waza) and joint locks (kansetsu-waza). The third family, atemi-waza, strikes to vital points, survives only in the kata, the prearranged forms.
None of this works without ukemi, the art of falling safely, which takes up part of every session. Throws are drilled through uchi-komi, repeated entries that stop just before the throw. The classic Gokyo, the "five teachings", groups throws by how hard they are to fall from, from the gentlest to the most demanding.
Jigorō Kanō and Kyūzō Mifune. Author: ベースボール・マガジン社 (Baseball Magazine) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Few people embodied this technical side better than Kyūzō Mifune, often described as the greatest judo technician after Kanō himself. He created the nage-waza-ura-no-kata, a kata of counter-throws.
Judo today
The sport is governed by the International Judo Federation (IJF), founded in 1951, which groups continental unions in Africa, the Americas, Asia, Europe and Oceania, each made up of national associations. The IOC voted in Rome in 1960 to bring judo into the Olympics; women's judo was a demonstration event in 1988 and became a full medal event at Barcelona 1992.
The Kōdōkan still exists: today an eight-storey building in Tokyo, it remains the headquarters of the worldwide judo community. Among modern champions, Frenchman Teddy Riner stands out, the only judoka to win twelve gold medals at the World Championships, with three Olympic titles in the heavyweight division.
The Kōdōkan in 1937. Author: Kodansha · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Curiosities
A practitioner is a jūdōka and the uniform a jūdōgi. The early jackets had short sleeves; the long-sleeved judogi was adopted in 1906.
The blue judogi, now used so referees and spectators can tell the two fighters apart, was proposed by Anton Geesink in 1986. In Japan both still wear white, and one fighter ties on a red marker, echoing the national flag.
In the United States, "freestyle judo" keeps techniques that the IJF rules have removed.
Many MMA fighters came from judo, from Olympic medallist Ronda Rousey to Khabib Nurmagomedov.
Timeline
1532Takenouchi-ryū founded, one of the oldest jūjutsu schools.
1868Meiji Restoration: end of the samurai class.
1882Kanō Jigorō opens the Kōdōkan in Tokyo.
1899Bartitsu in London.
1904Maeda Mitsuyo leaves Japan.
1906The long-sleeved judogi is adopted.
1909Kanō becomes the first Asian IOC member.
1938Sambo recognised in the USSR; Kanō dies.
1951International Judo Federation founded.
1964Judo debuts at the Tokyo Olympics.
1992Women’s judo becomes an Olympic medal event in Barcelona.
1993First UFC: Brazilian jiu-jitsu in the spotlight.
El judo, el jiu-jitsu brasileño, el sambo y buena parte del MMA comparten una raíz: las escuelas de lucha cuerpo a cuerpo de los samuráis, que Japón llamó jūjutsu, «la técnica de la suavidad». Esta es la historia de cómo un profesor menudo convirtió esa herencia en un deporte que hoy se practica en todo el mundo.
Luchar sin espada
En el Japón feudal, un guerrero podía perder la espada en plena batalla. Para ese momento existían técnicas de agarre, proyección, inmovilización y luxación, enseñadas en escuelas cerradas llamadas ryū. En el pacífico periodo Edo (1603–1868) estas escuelas se multiplicaron, cada una con sus secretos, sus pergaminos y su linaje de maestros. La Takenouchi-ryū, fundada en 1532, suele citarse entre las más antiguas.
«Suavidad» no significa debilidad. La idea era ceder ante la fuerza del rival y volverla contra él, en lugar de chocar de frente.
El fin de los samuráis
Con la Restauración Meiji de 1868, Japón se abrió a Occidente y abolió la clase samurái. Las viejas escuelas perdieron alumnos y prestigio; el jūjutsu pasó a parecer anticuado, a veces asociado a peleas callejeras y espectáculos.
Kanō Jigorō (1860–1938), fundador del judo. Autor: Fotógrafo desconhecido / unknown (retouched: Michael Hultström) · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Kanō Jigorō y el Kōdōkan
En ese ambiente, un joven estudiante de Tokio, Jigorō Kanō (1860–1938), empezó a practicar jūjutsu para ganar confianza. Entrenó primero en la Tenjin Shin'yō-ryū, fuerte en inmovilizaciones y golpes, y luego en la Kitō-ryū, especialista en proyecciones. En 1882, con pocos alumnos y un espacio prestado en un templo budista, abrió su propio centro: el Kōdōkan.
Kanō quitó de la práctica libre las técnicas más peligrosas, ordenó un método de enseñanza y le dio un nombre nuevo: jūdō, «el camino de la suavidad». Cambiar jutsu (técnica) por dō (camino) no era un detalle: para él, el judo era ante todo educación física y moral. Lo resumió en dos lemas: máxima eficacia con mínimo esfuerzo, y prosperidad mutua.
Su gran innovación fue el randori, el combate libre con un compañero que resiste. En vez de repetir solo formas pactadas, los alumnos probaban las técnicas de verdad y con seguridad. Los grados kyū y dan, con el cinturón negro, también nacieron en el Kōdōkan.
Ramas del mismo tronco
En las escuelas superiores japonesas surgió el kosen judo, con reglas que premiaban la lucha en el suelo. Por otro lado, Hironori Ōtsuka unió su Shindō Yōshin-ryū al kárate de Funakoshi y creó el Wadō-ryū. En Londres, hacia 1899, Edward Barton-Wright mezcló jūjutsu, boxeo, savate y bastón en el Bartitsu.
Esquema simplificado: muchos estilos tienen más de una raíz.
El judo recorre el mundo
Kanō envió alumnos al extranjero. Uno de ellos, Mitsuyo Maeda, salió de Japón en 1904 y pasó años combatiendo en Estados Unidos, Europa y América Latina. Se estableció en Belém, Brasil, donde enseñó al joven Carlos Gracie. La familia Gracie adaptó lo aprendido a la lucha en el suelo y a los combates sin reglas —el vale tudo— y así nació el jiu-jitsu brasileño, que mucho después mostraría su fuerza en el primer UFC, en 1993.
Maeda Mitsuyo (c. 1910), que llevó el judo a Brasil. Autor: Autor desconhecido / unknown · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
En la Unión Soviética, Vasili Oshchepkov, alumno del Kōdōkan, llevó el judo a Moscú; mezclado con las luchas populares de la región dio lugar al sambo, reconocido oficialmente en 1938.
En 1909, el propio Kanō se convirtió en el primer miembro asiático del Comité Olímpico Internacional. El sueño se cumplió en Tokio 1964, cuando el judo entró en los Juegos, y el neerlandés Anton Geesink, al ganar la categoría libre, demostró que el arte ya no era solo japonés.
Técnicas: proyectar, inmovilizar, golpear
El judo divide sus técnicas (waza) en tres familias. Las nage-waza son proyecciones: las tachi-waza se hacen de pie, mientras que en las sutemi-waza, las proyecciones "de sacrificio", quien proyecta renuncia a propósito a su propio equilibrio para llevar al compañero al suelo. Las katame-waza son las técnicas de control: inmovilizaciones que sujetan al rival de espaldas (osaekomi-waza), estrangulaciones (shime-waza) y luxaciones (kansetsu-waza). La tercera familia, las atemi-waza, golpes a puntos vitales, sobrevive solo en los kata, las formas preestablecidas.
Nada de esto funciona sin el ukemi, el arte de caer con seguridad, que ocupa parte de cada entrenamiento. Las proyecciones se entrenan con uchi-komi, entradas repetidas que se detienen justo antes de proyectar. El clásico Gokyo, las "cinco enseñanzas", agrupa las proyecciones según la dificultad de la caída, de las más suaves a las más exigentes.
Jigorō Kanō y Kyūzō Mifune. Autor: ベースボール・マガジン社 (Baseball Magazine) · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Pocos encarnaron tan bien este lado técnico como Kyūzō Mifune, a menudo considerado el mayor técnico del judo después del propio Kanō. Creó el nage-waza-ura-no-kata, un kata de contraproyecciones.
El judo hoy
El deporte está regido por la Federación Internacional de Judo (IJF), fundada en 1951, que agrupa uniones continentales de África, América, Asia, Europa y Oceanía, cada una formada por asociaciones nacionales. El COI decidió en Roma, en 1960, incluir el judo en los Juegos; el judo femenino fue deporte de exhibición en 1988 y pasó a otorgar medallas en Barcelona 1992.
El Kōdōkan sigue existiendo: hoy es un edificio de ocho plantas en Tokio y continúa siendo la sede de la comunidad mundial del judo. Entre los campeones modernos destaca el francés Teddy Riner, el único judoca que ha ganado doce medallas de oro en Campeonatos del Mundo, con tres títulos olímpicos en la categoría de peso pesado.
El Kōdōkan en 1937. Autor: Kodansha · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Curiosidades
Quien practica es un jūdōka y el uniforme se llama jūdōgi. Las primeras chaquetas tenían mangas cortas; el judogi de manga larga se adoptó en 1906.
El judogi azul, usado hoy para que árbitros y público distingan a los dos luchadores, lo propuso Anton Geesink en 1986. En Japón ambos siguen de blanco, y uno de ellos se ata una cinta roja, en recuerdo de la bandera nacional.
En Estados Unidos, el "freestyle judo" conserva técnicas que las reglas de la IJF han eliminado.
Muchos luchadores de MMA vienen del judo, desde la medallista olímpica Ronda Rousey hasta Khabib Nurmagomedov.
Cronología
1532Fundación de la Takenouchi-ryū, una de las escuelas de jūjutsu más antiguas.
1868Restauración Meiji: fin de la clase samurái.
1882Kanō Jigorō abre el Kōdōkan en Tokio.
1899Bartitsu en Londres.
1904Maeda Mitsuyo sale de Japón.
1906Se adopta el judogi de manga larga.
1909Kanō, primer miembro asiático del COI.
1938Sambo reconocido en la URSS; muere Kanō.
1951Fundada la Federación Internacional de Judo.
1964El judo debuta en los Juegos de Tokio.
1992El judo femenino otorga medallas olímpicas en Barcelona.
Le judo, le jiu-jitsu brésilien, le sambo et une grande partie du MMA ont une même racine : les écoles de corps-à-corps des samouraïs, que le Japon appelait jūjutsu — « la technique de la souplesse ». Voici comment un professeur de petite taille a transformé cet héritage en un sport pratiqué dans le monde entier.
Combattre sans sabre
Dans le Japon féodal, un guerrier pouvait perdre son sabre en pleine bataille. Pour ce moment-là existaient des techniques de saisie, de projection, d'immobilisation et de clé articulaire, enseignées dans des écoles fermées, les ryū. Pendant la paisible époque d'Edo (1603–1868), ces écoles se sont multipliées, chacune avec ses secrets, ses rouleaux et sa lignée de maîtres. La Takenouchi-ryū, fondée en 1532, compte généralement parmi les plus anciennes.
« Souplesse » ne veut pas dire faiblesse. Il s'agissait de céder à la force de l'adversaire pour la retourner contre lui, plutôt que de s'y opposer de front.
La fin des samouraïs
Avec la restauration de Meiji en 1868, le Japon s'est ouvert à l'Occident et a aboli la classe des samouraïs. Les vieilles écoles ont perdu élèves et prestige ; le jūjutsu paraissait dépassé, parfois associé aux bagarres de rue et aux spectacles de foire.
Kanō Jigorō (1860–1938), fondateur du judo. Auteur: Fotógrafo desconhecido / unknown (retouched: Michael Hultström) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Kanō Jigorō et le Kōdōkan
C'est dans ce contexte qu'un jeune étudiant de Tokyo, Jigorō Kanō (1860–1938), s'est mis au jūjutsu pour prendre confiance en lui. Il s'est d'abord formé à la Tenjin Shin'yō-ryū, forte en immobilisations et en frappes, puis à la Kitō-ryū, spécialiste des projections. En 1882, avec quelques élèves et un local prêté dans un temple bouddhiste, il a ouvert son propre centre : le Kōdōkan.
Kanō a retiré de la pratique libre les techniques les plus dangereuses, construit une méthode d'enseignement et lui a donné un nouveau nom : jūdō, « la voie de la souplesse ». Remplacer jutsu (technique) par dō (voie) n'était pas anodin : pour lui, le judo était d'abord une éducation physique et morale, résumée en deux maximes — le meilleur emploi de l'énergie, et entraide et prospérité mutuelle.
Sa grande innovation fut le randori, le combat libre face à un partenaire qui résiste. Au lieu de seulement répéter des formes convenues, les élèves testaient les techniques pour de vrai, en sécurité. Les grades kyū et dan, avec la ceinture noire, sont eux aussi nés au Kōdōkan.
Les branches du tronc
Dans les écoles supérieures japonaises s'est développé le kosen judo, aux règles favorables au combat au sol. Ailleurs, Hironori Ōtsuka a uni sa Shindō Yōshin-ryū au karaté de Funakoshi pour créer le Wadō-ryū. À Londres, vers 1899, Edward Barton-Wright a mêlé jūjutsu, boxe, savate et canne dans le Bartitsu.
Schéma simplifié : beaucoup de styles ont plusieurs racines.
Le judo fait le tour du monde
Kanō a envoyé des élèves à l'étranger. L'un d'eux, Mitsuyo Maeda, a quitté le Japon en 1904 et combattu pendant des années aux États-Unis, en Europe et en Amérique latine. Installé à Belém, au Brésil, il a enseigné au jeune Carlos Gracie. La famille Gracie a adapté cet enseignement au combat au sol et aux combats sans règles — le vale tudo — et ainsi est né le jiu-jitsu brésilien, qui montrerait sa force bien plus tard lors du premier UFC, en 1993.
Maeda Mitsuyo (v. 1910), qui apporta le judo au Brésil. Auteur: Autor desconhecido / unknown · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
En Union soviétique, Vassili Ochtchepkov, élève du Kōdōkan, a apporté le judo à Moscou ; mêlé aux luttes traditionnelles de la région, il a donné le sambo, officiellement reconnu en 1938.
En 1909, Kanō lui-même est devenu le premier membre asiatique du Comité international olympique. Le rêve s'est réalisé à Tokyo 1964, quand le judo est entré aux Jeux — et le Néerlandais Anton Geesink, vainqueur de la catégorie toutes catégories, a prouvé que l'art n'appartenait plus au seul Japon.
Les techniques : projeter, contrôler, frapper
Le judo classe ses techniques (waza) en trois familles. Les nage-waza sont les projections : les tachi-waza se font debout, tandis que dans les sutemi-waza, les projections « en sacrifice », celui qui projette abandonne volontairement son propre équilibre pour amener le partenaire au sol. Les katame-waza sont les techniques de contrôle : immobilisations qui maintiennent l'adversaire sur le dos (osaekomi-waza), étranglements (shime-waza) et clés articulaires (kansetsu-waza). La troisième famille, les atemi-waza, frappes sur les points vitaux, ne survit que dans les kata, les formes codifiées.
Rien de tout cela ne fonctionne sans l'ukemi, l'art de chuter sans se blesser, qui occupe une partie de chaque séance. Les projections s'entraînent par l'uchi-komi, des entrées répétées qui s'arrêtent juste avant la chute. Le classique Gokyo, les « cinq enseignements », regroupe les projections selon la difficulté de la chute, des plus douces aux plus exigeantes.
Jigorō Kanō et Kyūzō Mifune. Auteur: ベースボール・マガジン社 (Baseball Magazine) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Peu de gens ont incarné ce côté technique aussi bien que Kyūzō Mifune, souvent présenté comme le plus grand technicien du judo après Kanō lui-même. Il a créé le nage-waza-ura-no-kata, un kata de contre-prises.
Le judo aujourd'hui
Le sport est dirigé par la Fédération internationale de judo (IJF), fondée en 1951, qui réunit des unions continentales d'Afrique, des Amériques, d'Asie, d'Europe et d'Océanie, chacune composée de fédérations nationales. Le CIO a décidé à Rome, en 1960, d'inscrire le judo aux Jeux ; le judo féminin a été sport de démonstration en 1988 avant de devenir une épreuve à médailles à Barcelone en 1992.
Le Kōdōkan existe toujours : c'est aujourd'hui un bâtiment de huit étages à Tokyo, qui reste le siège de la communauté mondiale du judo. Parmi les champions modernes se distingue le Français Teddy Riner, seul judoka à avoir remporté douze médailles d'or aux Championnats du monde, avec trois titres olympiques chez les lourds.
Le Kōdōkan en 1937. Auteur: Kodansha · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Curiosités
Le pratiquant est un jūdōka et la tenue s'appelle jūdōgi. Les premières vestes avaient des manches courtes ; le judogi à manches longues a été adopté en 1906.
Le judogi bleu, utilisé aujourd'hui pour que arbitres et public distinguent les deux combattants, a été proposé par Anton Geesink en 1986. Au Japon, les deux portent toujours du blanc, et l'un d'eux noue un ruban rouge, en écho au drapeau national.
Aux États-Unis, le « freestyle judo » conserve des techniques que les règles de l'IJF ont supprimées.
Beaucoup de combattants de MMA viennent du judo, de la médaillée olympique Ronda Rousey à Khabib Nurmagomedov.
Chronologie
1532Fondation de la Takenouchi-ryū, l'une des plus anciennes écoles de jūjutsu.
1868Restauration de Meiji : fin des samouraïs.
1882Kanō Jigorō ouvre le Kōdōkan à Tokyo.
1899Le Bartitsu à Londres.
1904Maeda Mitsuyo quitte le Japon.
1906Adoption du judogi à manches longues.
1909Kanō, premier membre asiatique du CIO.
1938Sambo reconnu en URSS ; mort de Kanō.
1951Fondation de la Fédération internationale de judo.
1964Le judo fait ses débuts aux JO de Tokyo.
1992Le judo féminin devient épreuve olympique à Barcelone.
1993Premier UFC : le jiu-jitsu brésilien se révèle.