Um arco com mais de dois metros, assimétrico, e um alvo de 36 centímetros a 28 metros. O arqueiro demora quase um minuto a disparar uma única flecha. No kyūdō, acertar importa, mas a forma como se dispara importa mais.
Um arco muito antigo
O arco japonês (yumi) tem uma forma única: é mais comprido do que o próprio arqueiro e é segurado não no meio, mas no terço inferior. As primeiras imagens deste arco assimétrico aparecem em sinos de bronze (dōtaku) do período Yayoi, há cerca de dois mil anos. É feito tradicionalmente de bambu e madeira colados em camadas.
A arma do samurai
Muito antes da espada, a arma principal do guerreiro japonês era o arco, usado a cavalo. A escola Ogasawara codificou o tiro cerimonial e a cavalo, e ainda hoje faz demonstrações de yabusame, o tiro a galope, em santuários. No século XV, Heki Danjō criou a escola Heki, centrada no tiro a pé e na precisão, de onde descendem muitas linhas atuais.
Arqueiros, por Hokusai (1817). Autor: Katsushika Hokusai · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Das armas de fogo à via
As armas de fogo chegaram ao Japão com os portugueses em 1543 e, em poucas décadas, mudaram a guerra. O arco perdeu valor militar, mas não desapareceu: tornou-se disciplina de concentração, de etiqueta e de competição. No período Edo, o desafio mais famoso era o Tōshiya, na varanda do templo Sanjūsangen-dō, em Quioto: disparar flechas ao longo de toda a varanda. Em 1686, Wasa Daihachirō, de Kishū, acertou 8133 de 13 053 flechas num só dia e ficou com o recorde.
Arqueiro japonês fotografado em 1878. Autor: Unknown author · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
O kyūdō moderno
Depois da Segunda Guerra Mundial, as artes marciais japonesas criaram organizações próprias. Em 1953 a Federação Japonesa de Kyūdō (ANKF) reuniu as principais escolas para escolher o melhor de cada uma e publicou um manual, o Kyūdō Kyōhon, que define uma forma comum de tiro. É essa forma que se usa hoje em quase todo o Japão e nas federações ocidentais. A organização internacional, a Federação Internacional de Kyūdō, foi fundada em 2006.
As oito fases
Cada disparo segue oito fases, o hassetsu: posicionar os pés (ashibumi), firmar o tronco (dozukuri), preparar o arco (yugamae), erguê-lo (uchiokoshi), abrir (hikiwake), manter a tensão total (kai), soltar (hanare) e permanecer na posição final (zanshin). Os principiantes começam com um arco de borracha, depois treinam com o arco sem flecha e contra um fardo de palha (makiwara) a curta distância, antes de dispararem ao alvo.
Dojo, alvo e prática
Um dojo de kyūdō tem um soalho de madeira aberto para um relvado; do outro lado fica o matoba, com um monte de areia e os alvos a 28 metros. O alvo mais comum (hoshi mato) tem 36 centímetros. Há também tiro de longa distância (enteki), a 60 metros. Em exames e competições os arqueiros entram em grupo, saúdam os juízes, ajoelham-se e disparam um a seguir ao outro, normalmente quatro flechas.
Arqueiros no Campeonato do Mundo de Kyūdō de 2014. Autor: Pierre-Yves Beaudouin · Licença: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Verdade, bondade, beleza
Um lema do kyūdō moderno resume o espírito: shin-zen-bi — verdade, bondade e beleza. Um disparo correto deve acertar porque a forma foi correta, e não por acaso.
Curiosidades
No Ocidente o kyūdō ficou ligado ao zen sobretudo por causa de um livro, O zen na arte do tiro com arco (1948), do alemão Eugen Herrigel. Herrigel falava pouco japonês e usava intérprete com o seu mestre, e muitos praticantes contestam a sua leitura. Mesmo assim, o livro foi traduzido para japonês em 1956 e mudou também a imagem do kyūdō no próprio Japão. E o Tōshiya ainda se realiza todos os anos em janeiro, com arqueiros jovens, mas a 60 metros.
An asymmetric bow over two metres long and a 36-centimetre target 28 metres away. The archer takes almost a minute to loose a single arrow. In kyūdō, hitting matters, but how you shoot matters more.
A very old bow
The Japanese bow (yumi) has a unique shape: it is taller than the archer and is held not in the middle but at the lower third. The first images of this asymmetric bow appear on Yayoi-period bronze bells (dōtaku), about two thousand years ago. It is traditionally made of bamboo and wood laminated in layers.
The samurai's weapon
Long before the sword, the Japanese warrior's main weapon was the bow, used on horseback. The Ogasawara school codified ceremonial and mounted archery, and still gives displays of yabusame, shooting at a gallop, at shrines. In the 15th century Heki Danjō created the Heki school, focused on foot archery and precision, from which many current lines descend.
Archers, by Hokusai (1817). Author: Katsushika Hokusai · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
From firearms to a way
Firearms reached Japan with the Portuguese in 1543 and within a few decades changed warfare. The bow lost its military value but did not disappear: it became a discipline of concentration, etiquette and competition. In the Edo period the most famous challenge was the Tōshiya, on the veranda of the Sanjūsangen-dō temple in Kyoto: shooting arrows down the whole length of the veranda. In 1686 Wasa Daihachirō of Kishū hit with 8,133 of 13,053 arrows in a single day and took the record.
Japanese archer photographed in 1878. Author: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Modern kyūdō
After the Second World War, Japanese martial arts set up their own organisations. In 1953 the All Nippon Kyudo Federation (ANKF) brought together the main schools to take the best of each and published a manual, the Kyūdō Kyōhon, defining a common shooting form. That form is used today in almost all of Japan and in Western federations. The international body, the International Kyudo Federation, was founded in 2006.
The eight stages
Every shot follows eight stages, the hassetsu: placing the feet (ashibumi), setting the torso (dozukuri), readying the bow (yugamae), raising it (uchiokoshi), drawing (hikiwake), holding full draw (kai), release (hanare) and remaining in the final posture (zanshin). Beginners start with a rubber bow, then train with the bow and no arrow, and against a straw bale (makiwara) at close range, before shooting at the target.
Dojo, target and practice
A kyūdō dojo has a wooden floor open onto a lawn; on the far side is the matoba, with a sand bank and targets 28 metres away. The most common target (hoshi mato) is 36 centimetres across. There is also long-distance shooting (enteki) at 60 metres. In gradings and competitions archers enter as a group, bow to the judges, kneel and shoot one after another, usually four arrows each.
Archers at the 2014 Kyudo World Cup. Author: Pierre-Yves Beaudouin · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Truth, goodness, beauty
A motto of modern kyūdō sums up the spirit: shin-zen-bi — truth, goodness and beauty. A correct shot should hit because the form was correct, not by chance.
Curiosities
In the West kyūdō became linked to Zen largely through one book, Zen in the Art of Archery (1948), by the German Eugen Herrigel. Herrigel spoke little Japanese and used an interpreter with his teacher, and many practitioners dispute his reading. Even so, the book was translated into Japanese in 1956 and changed kyūdō's image in Japan too. And the Tōshiya is still held every January, with young archers, but at 60 metres.
Un arco asimétrico de más de dos metros y una diana de 36 centímetros a 28 metros. El arquero tarda casi un minuto en lanzar una sola flecha. En el kyūdō, acertar importa, pero cómo se dispara importa más.
Un arco muy antiguo
El arco japonés (yumi) tiene una forma única: es más alto que el arquero y se sujeta no por el centro, sino por el tercio inferior. Las primeras imágenes de este arco asimétrico aparecen en campanas de bronce (dōtaku) del periodo Yayoi, hace unos dos mil años. Se hace tradicionalmente con bambú y madera encolados en capas.
El arma del samurái
Mucho antes que la espada, el arma principal del guerrero japonés fue el arco, usado a caballo. La escuela Ogasawara codificó el tiro ceremonial y a caballo, y aún hoy hace exhibiciones de yabusame, el tiro al galope, en santuarios. En el siglo XV, Heki Danjō creó la escuela Heki, centrada en el tiro a pie y la precisión, de la que descienden muchas líneas actuales.
Arqueros, por Hokusai (1817). Autor: Katsushika Hokusai · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
De las armas de fuego a la vía
Las armas de fuego llegaron a Japón con los portugueses en 1543 y en pocas décadas cambiaron la guerra. El arco perdió valor militar, pero no desapareció: se convirtió en disciplina de concentración, etiqueta y competición. En el periodo Edo, el reto más famoso era el Tōshiya, en la galería del templo Sanjūsangen-dō de Kioto: lanzar flechas a lo largo de toda la galería. En 1686, Wasa Daihachirō, de Kishū, acertó 8133 de 13 053 flechas en un solo día y se quedó con el récord.
Arquero japonés fotografiado en 1878. Autor: Unknown author · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
El kyūdō moderno
Tras la Segunda Guerra Mundial, las artes marciales japonesas crearon sus propias organizaciones. En 1953 la Federación Japonesa de Kyūdō (ANKF) reunió a las principales escuelas para tomar lo mejor de cada una y publicó un manual, el Kyūdō Kyōhon, que define una forma común de tiro. Es la que se usa hoy en casi todo Japón y en las federaciones occidentales. La organización internacional, la Federación Internacional de Kyūdō, se fundó en 2006.
Las ocho fases
Cada disparo sigue ocho fases, el hassetsu: colocar los pies (ashibumi), asentar el tronco (dozukuri), preparar el arco (yugamae), elevarlo (uchiokoshi), abrir (hikiwake), mantener la tensión plena (kai), soltar (hanare) y permanecer en la postura final (zanshin). Los principiantes empiezan con un arco de goma, después entrenan con el arco sin flecha y contra un fardo de paja (makiwara) a corta distancia, antes de tirar a la diana.
Dojo, diana y práctica
Un dojo de kyūdō tiene un suelo de madera abierto a un césped; al otro lado está el matoba, con un talud de arena y las dianas a 28 metros. La diana más común (hoshi mato) mide 36 centímetros. También hay tiro a larga distancia (enteki), a 60 metros. En exámenes y competiciones los arqueros entran en grupo, saludan a los jueces, se arrodillan y tiran uno tras otro, normalmente cuatro flechas.
Arqueros en el Mundial de Kyūdō de 2014. Autor: Pierre-Yves Beaudouin · Licencia: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Verdad, bondad, belleza
Un lema del kyūdō moderno resume su espíritu: shin-zen-bi, verdad, bondad y belleza. Un disparo correcto debe acertar porque la forma fue correcta, no por casualidad.
Curiosidades
En Occidente el kyūdō se asoció al zen sobre todo por un libro, Zen en el arte del tiro con arco (1948), del alemán Eugen Herrigel. Herrigel hablaba poco japonés y usaba intérprete con su maestro, y muchos practicantes discuten su lectura. Aun así, el libro se tradujo al japonés en 1956 y cambió también la imagen del kyūdō en Japón. Y el Tōshiya sigue celebrándose cada enero, con arqueros jóvenes, pero a 60 metros.
Un arc asymétrique de plus de deux mètres et une cible de 36 centimètres à 28 mètres. L'archer met presque une minute à tirer une seule flèche. En kyūdō, toucher compte, mais la manière de tirer compte davantage.
Un arc très ancien
L'arc japonais (yumi) a une forme unique : il est plus grand que l'archer et se tient non pas au milieu, mais au tiers inférieur. Les premières images de cet arc asymétrique figurent sur des cloches de bronze (dōtaku) de la période Yayoi, il y a environ deux mille ans. Il est traditionnellement fait de bambou et de bois collés en couches.
L'arme du samouraï
Bien avant le sabre, l'arme principale du guerrier japonais était l'arc, utilisé à cheval. L'école Ogasawara codifia le tir cérémoniel et monté, et donne encore des démonstrations de yabusame, le tir au galop, dans les sanctuaires. Au XVe siècle, Heki Danjō créa l'école Heki, centrée sur le tir à pied et la précision, dont descendent de nombreuses lignées actuelles.
Archers, par Hokusai (1817). Auteur: Katsushika Hokusai · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Des armes à feu à la voie
Les armes à feu arrivèrent au Japon avec les Portugais en 1543 et changèrent la guerre en quelques décennies. L'arc perdit sa valeur militaire mais ne disparut pas : il devint une discipline de concentration, d'étiquette et de compétition. À l'époque d'Edo, le défi le plus célèbre était le Tōshiya, sur la véranda du temple Sanjūsangen-dō à Kyoto : tirer des flèches sur toute la longueur de la véranda. En 1686, Wasa Daihachirō, de Kishū, réussit 8 133 flèches sur 13 053 en une seule journée et prit le record.
Archer japonais photographié en 1878. Auteur: Unknown author · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Le kyūdō moderne
Après la Seconde Guerre mondiale, les arts martiaux japonais créèrent leurs propres organisations. En 1953, la Fédération japonaise de kyūdō (ANKF) réunit les principales écoles pour retenir le meilleur de chacune et publia un manuel, le Kyūdō Kyōhon, qui définit une forme de tir commune. C'est celle qu'on utilise aujourd'hui dans presque tout le Japon et dans les fédérations occidentales. L'organisation internationale, la Fédération internationale de kyūdō, a été fondée en 2006.
Les huit phases
Chaque tir suit huit phases, le hassetsu : placer les pieds (ashibumi), asseoir le buste (dozukuri), préparer l'arc (yugamae), l'élever (uchiokoshi), ouvrir (hikiwake), tenir la pleine allonge (kai), lâcher (hanare) et demeurer dans la posture finale (zanshin). Les débutants commencent avec un arc en caoutchouc, puis s'entraînent avec l'arc sans flèche et contre une botte de paille (makiwara) à courte distance, avant de tirer sur la cible.
Dojo, cible et pratique
Un dojo de kyūdō a un plancher ouvert sur une pelouse ; de l'autre côté se trouve le matoba, avec une butte de sable et les cibles à 28 mètres. La cible la plus courante (hoshi mato) mesure 36 centimètres. Il existe aussi le tir à longue distance (enteki), à 60 mètres. Lors des examens et compétitions, les archers entrent en groupe, saluent les juges, s'agenouillent et tirent l'un après l'autre, en général quatre flèches.
Archers à la Coupe du monde de kyūdō 2014. Auteur: Pierre-Yves Beaudouin · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Vérité, bonté, beauté
Une devise du kyūdō moderne en résume l'esprit : shin-zen-bi — vérité, bonté et beauté. Un tir juste doit toucher parce que la forme était juste, et non par hasard.
Curiosités
En Occident, le kyūdō a été associé au zen surtout à cause d'un livre, Le Zen dans l'art chevaleresque du tir à l'arc (1948), de l'Allemand Eugen Herrigel. Herrigel parlait peu japonais et passait par un interprète avec son maître, et beaucoup de pratiquants contestent sa lecture. Le livre fut pourtant traduit en japonais en 1956 et changea aussi l'image du kyūdō au Japon. Et le Tōshiya a toujours lieu chaque janvier, avec de jeunes archers, mais à 60 mètres.