Miyamoto Musashi: o espadachim e o Livro dos Cinco Anéis
· 4 min de leitura
Poucos espadachins são tão famosos como Miyamoto Musashi, e poucos estão rodeados de tantas lendas. Separar o que está documentado do que romances, peças e filmes acrescentaram mais tarde dá um retrato mais interessante: um duelista que se tornou estratega, pintor e autor de um dos textos marciais mais lidos do mundo.
Retrato tradicionalmente atribuído ao próprio Musashi, com duas espadas. Autor: Miyamoto Musashi · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Uma juventude errante
Musashi nasceu por volta de 1584 (algumas fontes indicam 1582), no oeste do Japão, no fim do período Sengoku, a era dos «Estados em Guerra». Quase tudo o que sabemos da sua juventude vem de duas fontes: as suas próprias palavras no início do Gorin no sho e uma pedra memorial erguida em Kokura em 1654 pelo filho adotivo, Miyamoto Iori. Biografias posteriores, como o Nitenki (século XVIII), juntam muitos pormenores pitorescos, mas foram escritas mais de um século depois da sua morte.
Segundo o próprio Musashi, travou o primeiro duelo aos 13 anos, contra um espadachim chamado Arima Kihei, e entre essa idade e os 29 lutou mais de sessenta vezes sem perder. Se participou na grande batalha de Sekigahara, em 1600, ainda é discutido pelos historiadores. O certo é que viajou durante anos como shugyōsha, um guerreiro em peregrinação de treino, a medir-se com outras escolas de kenjutsu.
Quioto e Ganryūjima
Por volta de 1604, em Quioto, Musashi venceu membros da família Yoshioka, uma casa respeitada de mestres de espada. O duelo mais famoso aconteceu em 1612, na pequena ilha de Funashima, no estreito entre Honshū e Kyūshū, mais tarde rebatizada Ganryūjima em honra do adversário, Sasaki Kojirō (cuja escola se chamava Ganryū). A versão popular diz que Musashi chegou atrasado de propósito, talhou uma longa espada de madeira a partir de um remo durante a travessia e matou Kojirō com um só golpe. O duelo em si está bem atestado; os pormenores do remo e do atraso vêm de relatos posteriores e devem ser lidos como tradição.
O duelo de Ganryūjima numa estampa ukiyo-e do período Edo. Autor: Yoshifusa Utagawa (active ca. 1840-1860) · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Duas espadas: a Niten Ichi-ryū
Os samurais usavam normalmente duas lâminas, a longa katana e a mais curta wakizashi, mas combatiam com a longa empunhada a duas mãos. Musashi defendia que o guerreiro devia saber usar as duas ao mesmo tempo, uma em cada mão, para que nada do que trazia ficasse inútil. A sua escola ficou conhecida como Niten Ichi-ryū, «a escola dos dois céus como um só». Ainda hoje é ensinada como koryū, tradição antiga, com formas a dois praticadas com espadas de madeira (bokken).
Nos seus escritos insiste que o método das duas espadas é uma ferramenta de treino e não um dogma: praticar com uma espada em cada mão liberta o corpo e ensina o aluno a manejar a espada longa só com um braço quando for preciso.
O Livro dos Cinco Anéis
Em 1640 Musashi instalou-se em Kumamoto, em Kyūshū, como convidado do clã Hosokawa. Entre 1643 e 1645 retirou-se para Reigandō, uma gruta nas colinas a oeste da cidade, e escreveu o Gorin no sho, normalmente traduzido como O Livro dos Cinco Anéis. Pouco antes de morrer entregou o manuscrito ao aluno Terao Magonojō.
A gruta Reigandō, perto de Kumamoto, onde Musashi escreveu o livro. Autor: STA3816 · Licença: CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
O livro divide-se em cinco rolos com nomes dos elementos da cosmologia budista:
Terra: a visão geral da estratégia, comparada ao trabalho de um carpinteiro que tem de conhecer as ferramentas e planear a casa inteira.
Água: o coração técnico, com postura, olhar, pega, deslocações e as cinco guardas básicas.
Fogo: o combate propriamente dito, com o tempo certo, a iniciativa e a arte de desequilibrar o adversário.
Vento: uma crítica a outras escolas que dependem de técnicas a mais, espadas compridas demais ou guardas fixas.
Vazio: um texto curto de fecho sobre agir sem ideias fixas, depois de tudo aprendido.
O estilo é prático e direto. Musashi recomenda um olhar calmo e largo, «ver o que está longe como se estivesse perto e o que está perto como se estivesse longe», e uma pega firme mas não rígida. A ideia central é que os mesmos princípios valem para uma pessoa diante de outra e para exércitos frente a frente. Foi por isso que o livro se tornou popular no século XX muito para lá do dojo, incluindo entre leitores do mundo dos negócios.
O pintor
Musashi foi também um hábil pintor a tinta e calígrafo. Obras que lhe são atribuídas, como o Picanço numa árvore seca, estão guardadas em museus japoneses e algumas são classificadas como Bens Culturais Importantes. A mesma economia de movimento que exigia à espada vê-se no pincel: poucos traços, nenhuma hesitação.
«Picanço numa árvore seca», pintura a tinta atribuída a Musashi. Autor: Miyamoto Musashi · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Últimos anos e legado
Uma semana antes de morrer, em 1645, Musashi escreveu o Dokkōdō, «o caminho de andar sozinho», uma lista de 21 preceitos curtos sobre autodisciplina. Foi sepultado em Kumamoto.
A sua fama popular é sobretudo moderna. O romance Musashi, de Eiji Yoshikawa, publicado em folhetim de 1935 a 1939, fez dele um herói nacional; inspirou a Trilogia Samurai de Hiroshi Inagaki (1954–56), com Toshirō Mifune, e, décadas depois, a manga Vagabond, de Takehiko Inoue. Nos dojos de kendo e iaido de hoje, Musashi é citado a toda a hora, sobretudo a sua insistência na prática constante: «mil dias de treino para forjar, dez mil dias para polir».
A lição que melhor sobrevive não é o número de duelos, mas o método: estudar todas as armas, treinar o corpo e o olhar, fugir dos hábitos fixos e continuar a aprender até ao fim. Para o contexto mais largo das velhas escolas de espada, veja o nosso artigo sobre as tradições koryū da espada.
Linha do tempo
1584Data de nascimento mais citada (algumas fontes dizem 1582).
Miyamoto Musashi: the swordsman and The Book of Five Rings
· 4 min read
Few swordsmen are as famous as Miyamoto Musashi, and few are surrounded by as many legends. Separating what is documented from what novels, plays and films added later gives a more interesting portrait: a duellist who became a strategist, a painter and the author of one of the most read martial texts in the world.
Portrait traditionally attributed to Musashi himself, holding two swords. Author: Miyamoto Musashi · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
A wandering youth
Musashi was born around 1584 (some sources give 1582) in western Japan, at the end of the Sengoku period, the "Warring States" age. Almost everything we know about his early life comes from two sources: his own words at the start of the Gorin no sho, and a memorial stone erected in Kokura in 1654 by his adopted son, Miyamoto Iori. Later biographies such as the Nitenki (18th century) add many colourful details, but they were written more than a century after his death.
According to Musashi himself, he fought his first duel at 13, against a swordsman called Arima Kihei, and between then and the age of 29 he fought more than sixty times without losing. Whether he took part in the great battle of Sekigahara in 1600 is still debated by historians. What is certain is that he travelled for years as a shugyōsha, a warrior on a training pilgrimage, testing himself against other schools of kenjutsu.
Kyoto and Ganryūjima
Around 1604, in Kyoto, Musashi defeated members of the Yoshioka family, a respected house of sword teachers. The most famous duel came in 1612, on the small island of Funashima in the strait between Honshū and Kyūshū, later renamed Ganryūjima after his opponent, Sasaki Kojirō (whose school was called Ganryū). The popular version says Musashi arrived late on purpose, carved a long wooden sword from an oar during the crossing and killed Kojirō with a single blow. The duel itself is well attested; the details of the oar and the delay come from later accounts and should be read as tradition.
The Ganryūjima duel in an Edo-period ukiyo-e print. Author: Yoshifusa Utagawa (active ca. 1840-1860) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Two swords: Niten Ichi-ryū
Samurai normally wore two blades, the long katana and the shorter wakizashi, but fought with the long one held in both hands. Musashi argued that a warrior should be able to use both at once, one in each hand, so that nothing he carried would be wasted. His school became known as Niten Ichi-ryū, "the school of two heavens as one". It is still taught today as a koryū, an old-style tradition, with paired forms practised with wooden swords (bokken).
In his writing he insists that the two-sword method is a training tool, not a dogma: practising with one sword in each hand frees the body and teaches the student to wield a long sword with a single arm when necessary.
The Book of Five Rings
In 1640 Musashi settled in Kumamoto, on Kyūshū, as a guest of the Hosokawa clan. Between 1643 and 1645 he retired to Reigandō, a cave in the hills west of the city, and wrote the Gorin no sho, usually translated as The Book of Five Rings. Shortly before his death he gave the manuscript to his student Terao Magonojō.
Reigandō cave near Kumamoto, where Musashi wrote the book. Author: STA3816 · Licence: CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
The book is divided into five scrolls named after the elements of Buddhist cosmology:
Earth: the overview of strategy, compared to the work of a carpenter who must know his tools and plan the whole house.
Water: the technical heart, covering posture, gaze, grip, footwork and the five basic guards.
Fire: the fight itself, with timing, taking the initiative and unsettling the opponent.
Wind: a critique of other schools that rely on too many techniques, overly long swords or fixed guards.
Void: a short closing text on acting without fixed ideas, once everything has been learnt.
The style is practical and direct. Musashi recommends a calm, wide gaze, "seeing far things as if they were close and close things as if far", and a firm but not rigid grip. His central idea is that the same principles apply to one person facing another and to armies facing each other. This is why the book became popular in the 20th century well beyond the dojo, including among business readers.
The painter
Musashi was also a skilled ink painter and calligrapher. Works attributed to him, such as the Shrike on a withered branch, are kept in Japanese museums and some are classed as Important Cultural Properties. The same economy of movement that he asked of the sword can be seen in the brushwork: few strokes, no hesitation.
'Shrike on a withered branch', ink painting attributed to Musashi. Author: Miyamoto Musashi · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Last years and legacy
A week before he died in 1645, Musashi wrote the Dokkōdō, "the path of walking alone", a list of 21 short precepts on self-discipline. He was buried in Kumamoto.
His popular fame is largely modern. Eiji Yoshikawa's novel Musashi, serialised from 1935 to 1939, turned him into a national hero; it inspired Hiroshi Inagaki's Samurai Trilogy (1954–56) with Toshirō Mifune and, decades later, Takehiko Inoue's manga Vagabond. In today's kendo and iaido dojos, Musashi is quoted constantly, especially his insistence on constant practice: "a thousand days of training to forge, ten thousand days to polish".
The lesson that survives best is not the number of duels but the method: study every weapon, train the body and the eyes, avoid fixed habits and keep learning until the end. For the wider context of the old sword schools, see our article on the koryū sword traditions.
Timeline
1584Most cited birth year (some sources say 1582).
Miyamoto Musashi: el espadachín y el Libro de los Cinco Anillos
· 4 min de lectura
Pocos espadachines son tan famosos como Miyamoto Musashi, y pocos están rodeados de tantas leyendas. Separar lo documentado de lo que novelas, obras de teatro y películas añadieron después da un retrato más interesante: un duelista que se convirtió en estratega, pintor y autor de uno de los textos marciales más leídos del mundo.
Retrato atribuido tradicionalmente al propio Musashi, con dos espadas. Autor: Miyamoto Musashi · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Una juventud errante
Musashi nació hacia 1584 (algunas fuentes dicen 1582) en el oeste de Japón, al final del período Sengoku, la era de los «Estados en guerra». Casi todo lo que sabemos de su juventud procede de dos fuentes: sus propias palabras al comienzo del Gorin no sho y una estela conmemorativa levantada en Kokura en 1654 por su hijo adoptivo, Miyamoto Iori. Biografías posteriores, como el Nitenki (siglo XVIII), añaden muchos detalles pintorescos, pero se escribieron más de un siglo después de su muerte.
Según el propio Musashi, libró su primer duelo a los 13 años, contra un espadachín llamado Arima Kihei, y entre esa edad y los 29 combatió más de sesenta veces sin perder. Si participó en la gran batalla de Sekigahara, en 1600, aún lo discuten los historiadores. Lo seguro es que viajó durante años como shugyōsha, un guerrero en peregrinación de entrenamiento, midiéndose con otras escuelas de kenjutsu.
Kioto y Ganryūjima
Hacia 1604, en Kioto, Musashi venció a miembros de la familia Yoshioka, una casa respetada de maestros de espada. El duelo más famoso tuvo lugar en 1612, en la pequeña isla de Funashima, en el estrecho entre Honshū y Kyūshū, rebautizada después Ganryūjima en honor de su rival, Sasaki Kojirō (cuya escuela se llamaba Ganryū). La versión popular cuenta que Musashi llegó tarde a propósito, talló una larga espada de madera a partir de un remo durante la travesía y mató a Kojirō de un solo golpe. El duelo en sí está bien atestiguado; los detalles del remo y del retraso proceden de relatos posteriores y deben leerse como tradición.
El duelo de Ganryūjima en una estampa ukiyo-e del período Edo. Autor: Yoshifusa Utagawa (active ca. 1840-1860) · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Dos espadas: la Niten Ichi-ryū
Los samuráis llevaban normalmente dos hojas, la larga katana y la más corta wakizashi, pero combatían con la larga empuñada a dos manos. Musashi sostenía que el guerrero debía saber usar ambas a la vez, una en cada mano, para que nada de lo que llevaba resultara inútil. Su escuela se conoció como Niten Ichi-ryū, «la escuela de los dos cielos como uno». Todavía hoy se enseña como koryū, tradición antigua, con formas por parejas practicadas con espadas de madera (bokken).
En sus escritos insiste en que el método de las dos espadas es una herramienta de entrenamiento y no un dogma: practicar con una espada en cada mano libera el cuerpo y enseña al alumno a manejar la espada larga con un solo brazo cuando haga falta.
El Libro de los Cinco Anillos
En 1640 Musashi se instaló en Kumamoto, en Kyūshū, como invitado del clan Hosokawa. Entre 1643 y 1645 se retiró a Reigandō, una cueva en las colinas al oeste de la ciudad, y escribió el Gorin no sho, normalmente traducido como El Libro de los Cinco Anillos. Poco antes de morir entregó el manuscrito a su alumno Terao Magonojō.
La cueva Reigandō, cerca de Kumamoto, donde Musashi escribió el libro. Autor: STA3816 · Licencia: CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
El libro se divide en cinco rollos con nombres de los elementos de la cosmología budista:
Tierra: la visión general de la estrategia, comparada con el trabajo de un carpintero que debe conocer sus herramientas y planificar toda la casa.
Agua: el corazón técnico, con postura, mirada, agarre, desplazamientos y las cinco guardias básicas.
Fuego: el combate en sí, con el momento justo, la iniciativa y el arte de desestabilizar al rival.
Viento: una crítica a otras escuelas que dependen de demasiadas técnicas, espadas demasiado largas o guardias fijas.
Vacío: un breve texto final sobre actuar sin ideas fijas, una vez aprendido todo.
El estilo es práctico y directo. Musashi recomienda una mirada tranquila y amplia, «ver lo lejano como si estuviera cerca y lo cercano como si estuviera lejos», y un agarre firme pero no rígido. Su idea central es que los mismos principios valen para una persona frente a otra y para ejércitos frente a frente. Por eso el libro se hizo popular en el siglo XX mucho más allá del dojo, también entre lectores del mundo empresarial.
El pintor
Musashi fue también un hábil pintor a tinta y calígrafo. Obras que se le atribuyen, como el Alcaudón en una rama seca, se conservan en museos japoneses y algunas están clasificadas como Bienes Culturales Importantes. La misma economía de movimiento que exigía a la espada se ve en el pincel: pocos trazos, ninguna vacilación.
«Alcaudón en una rama seca», pintura a tinta atribuida a Musashi. Autor: Miyamoto Musashi · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Últimos años y legado
Una semana antes de morir, en 1645, Musashi escribió el Dokkōdō, «el camino de andar solo», una lista de 21 preceptos breves sobre autodisciplina. Fue enterrado en Kumamoto.
Su fama popular es sobre todo moderna. La novela Musashi, de Eiji Yoshikawa, publicada por entregas de 1935 a 1939, lo convirtió en héroe nacional; inspiró la Trilogía Samurái de Hiroshi Inagaki (1954–56), con Toshirō Mifune, y décadas después el manga Vagabond, de Takehiko Inoue. En los dojos de kendo e iaido de hoy se cita a Musashi constantemente, sobre todo su insistencia en la práctica continua: «mil días de entrenamiento para forjar, diez mil días para pulir».
La lección que mejor sobrevive no es el número de duelos, sino el método: estudiar todas las armas, entrenar el cuerpo y la mirada, evitar los hábitos fijos y seguir aprendiendo hasta el final. Para el contexto más amplio de las antiguas escuelas de espada, vea nuestro artículo sobre las tradiciones koryū de la espada.
Cronología
1584Año de nacimiento más citado (algunas fuentes dicen 1582).
1604Duelos con la escuela Yoshioka en Kioto.
1612Duelo con Sasaki Kojirō en Ganryūjima.
1640Se instala en Kumamoto, bajo el clan Hosokawa.
1643–45Escribe el Gorin no sho en la cueva Reigandō.
Miyamoto Musashi : le sabreur et le Livre des cinq anneaux
· 4 min de lecture
Peu de sabreurs sont aussi célèbres que Miyamoto Musashi, et peu sont entourés d’autant de légendes. Séparer ce qui est documenté de ce que romans, pièces et films ont ajouté plus tard donne un portrait plus intéressant : un duelliste devenu stratège, peintre et auteur de l’un des textes martiaux les plus lus au monde.
Portrait traditionnellement attribué à Musashi lui-même, avec deux sabres. Auteur: Miyamoto Musashi · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Une jeunesse errante
Musashi naît vers 1584 (certaines sources disent 1582) dans l’ouest du Japon, à la fin de l’époque Sengoku, l’ère des « Royaumes combattants ». Presque tout ce que l’on sait de sa jeunesse vient de deux sources : ses propres mots au début du Gorin no sho et une stèle commémorative élevée à Kokura en 1654 par son fils adoptif, Miyamoto Iori. Des biographies plus tardives, comme le Nitenki (XVIIIe siècle), ajoutent beaucoup de détails pittoresques, mais elles ont été écrites plus d’un siècle après sa mort.
D’après Musashi lui-même, il livre son premier duel à 13 ans, contre un sabreur nommé Arima Kihei, et entre cet âge et 29 ans il combat plus de soixante fois sans perdre. Sa participation à la grande bataille de Sekigahara, en 1600, reste débattue par les historiens. Ce qui est sûr, c’est qu’il voyage pendant des années comme shugyōsha, un guerrier en pèlerinage d’entraînement, se mesurant à d’autres écoles de kenjutsu.
Kyoto et Ganryūjima
Vers 1604, à Kyoto, Musashi bat des membres de la famille Yoshioka, une maison respectée de maîtres d’armes. Le duel le plus célèbre a lieu en 1612 sur la petite île de Funashima, dans le détroit entre Honshū et Kyūshū, rebaptisée ensuite Ganryūjima d’après son adversaire, Sasaki Kojirō (dont l’école s’appelait Ganryū). La version populaire raconte que Musashi arrive en retard exprès, taille un long sabre de bois dans une rame pendant la traversée et tue Kojirō d’un seul coup. Le duel lui-même est bien attesté ; les détails de la rame et du retard viennent de récits postérieurs et relèvent de la tradition.
Le duel de Ganryūjima dans une estampe ukiyo-e de l’époque d’Edo. Auteur: Yoshifusa Utagawa (active ca. 1840-1860) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Deux sabres : la Niten Ichi-ryū
Les samouraïs portaient normalement deux lames, le long katana et le plus court wakizashi, mais combattaient avec le long sabre tenu à deux mains. Musashi soutenait que le guerrier devait savoir utiliser les deux à la fois, un dans chaque main, pour que rien de ce qu’il portait ne reste inutile. Son école prend le nom de Niten Ichi-ryū, « l’école des deux cieux comme un seul ». Elle est encore enseignée aujourd’hui comme koryū, tradition ancienne, avec des formes à deux pratiquées au sabre de bois (bokken).
Dans ses écrits, il insiste sur le fait que la méthode des deux sabres est un outil d’entraînement et non un dogme : s’exercer avec un sabre dans chaque main libère le corps et apprend à manier le long sabre d’un seul bras quand il le faut.
Le Livre des cinq anneaux
En 1640, Musashi s’installe à Kumamoto, sur Kyūshū, comme hôte du clan Hosokawa. Entre 1643 et 1645, il se retire à Reigandō, une grotte dans les collines à l’ouest de la ville, et écrit le Gorin no sho, généralement traduit par Le Livre des cinq anneaux. Peu avant sa mort, il remet le manuscrit à son élève Terao Magonojō.
La grotte Reigandō, près de Kumamoto, où Musashi écrivit le livre. Auteur: STA3816 · Licence: CC BY-SA 3.0 · Wikimedia Commons
Le livre se divise en cinq rouleaux portant les noms des éléments de la cosmologie bouddhique :
Terre : la vue d’ensemble de la stratégie, comparée au travail d’un charpentier qui doit connaître ses outils et concevoir toute la maison.
Eau : le cœur technique, avec la posture, le regard, la saisie, les déplacements et les cinq gardes de base.
Feu : le combat lui-même, avec le bon moment, l’initiative et l’art de déstabiliser l’adversaire.
Vent : une critique des autres écoles qui misent sur trop de techniques, des sabres trop longs ou des gardes figées.
Vide : un court texte final sur l’action sans idées fixes, une fois tout appris.
Le style est pratique et direct. Musashi recommande un regard calme et large, « voir les choses lointaines comme proches et les choses proches comme lointaines », et une saisie ferme mais non rigide. Son idée centrale est que les mêmes principes valent pour un homme face à un autre et pour des armées face à face. C’est pourquoi le livre est devenu populaire au XXe siècle bien au-delà du dojo, y compris chez les lecteurs du monde des affaires.
Le peintre
Musashi était aussi un habile peintre à l’encre et calligraphe. Des œuvres qui lui sont attribuées, comme la Pie-grièche sur une branche morte, sont conservées dans des musées japonais et certaines sont classées Biens culturels importants. La même économie de mouvement qu’il exigeait du sabre se retrouve dans le pinceau : peu de traits, aucune hésitation.
« Pie-grièche sur une branche morte », lavis attribué à Musashi. Auteur: Miyamoto Musashi · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Dernières années et héritage
Une semaine avant de mourir, en 1645, Musashi écrit le Dokkōdō, « la voie de celui qui marche seul », une liste de 21 courts préceptes sur la discipline de soi. Il est inhumé à Kumamoto.
Sa renommée populaire est surtout moderne. Le roman Musashi d’Eiji Yoshikawa, publié en feuilleton de 1935 à 1939, en fait un héros national ; il inspire la Trilogie du samouraï de Hiroshi Inagaki (1954–56), avec Toshirō Mifune, puis, des décennies plus tard, le manga Vagabond de Takehiko Inoue. Dans les dojos de kendo et d’iaido d’aujourd’hui, Musashi est cité sans cesse, surtout pour son insistance sur la pratique continue : « mille jours d’entraînement pour forger, dix mille jours pour polir ».
La leçon qui survit le mieux n’est pas le nombre de duels, mais la méthode : étudier toutes les armes, entraîner le corps et le regard, fuir les habitudes figées et continuer à apprendre jusqu’au bout. Pour le contexte plus large des anciennes écoles de sabre, lisez notre article sur les traditions koryū du sabre.
Chronologie
1584Année de naissance la plus citée (certaines sources disent 1582).
1604Duels contre l’école Yoshioka à Kyoto.
1612Duel contre Sasaki Kojirō à Ganryūjima.
1640S’installe à Kumamoto auprès du clan Hosokawa.
1643–45Écrit le Gorin no sho dans la grotte Reigandō.
1645Meurt à Kumamoto en laissant aussi le Dokkōdō.