É a única arte de combate que se luta de sapatos — e os sapatos são armas. A savate, ou «boxe francês», junta os socos do boxe inglês aos pontapés baixos e precisos das ruas de Paris do século XIX.
Das ruas às salas
No início do século XIX, marinheiros e populares de Marselha e Paris lutavam com os pés, num estilo chamado chausson; a palavra savate, que quer dizer «sapato velho», era usada para as lutas de rua. Não havia regras: valiam cabeçadas, dedos nos olhos e agarrões. Foi precisamente isso que os primeiros professores quiseram mudar.
Michel Casseux (1794–1869), conhecido como «le Pisseux», abriu em 1825 o primeiro estabelecimento dedicado a uma versão regulada, que proibia cabeçadas, dedos nos olhos e agarrões. O seu aluno Charles Lecour (1808–1894) deu o passo seguinte.
Joseph Charlemont. Autor: Joseph Charlemont · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Lecour e o encontro com o boxe inglês
Nos anos 1830 o boxe inglês estava na moda em França. Segundo a tradição, Lecour treinou com boxeadores ingleses e percebeu que, de perto, os seus socos eram muito superiores aos dos franceses. Decidiu juntar as duas coisas: os pontapés da savate e os punhos do boxe. Foi também o primeiro a usar luvas de boxe no treino, para os alunos poderem treinar os socos sem magoar as mãos. Nascia o boxe francês moderno.
Charlemont e a codificação
Joseph Charlemont deu-lhe forma de escola, com tratados ilustrados, técnicas nomeadas e uma sala própria em Paris; o seu livro sobre a arte do boxe francês e da bengala, de 1877, tornou-se referência. O seu filho, Charles Charlemont, continuou o trabalho e, em 1899, enfrentou o boxeador inglês Jerry Driscoll num combate muito comentado: os franceses reclamaram a vitória depois de um pontapé circular ao estômago, mas o resultado foi contestado do lado inglês.
Os pontapés são dados com a ponta ou a sola do sapato, e o corpo mantém-se direito, como na esgrima. Os quatro pontapés de base são o fouetté (circular, com a ponta), o chassé (empurrão lateral ou frontal com a sola), o revers (em gancho, por fora) e o coup de pied bas (pontapé baixo à canela, muitas vezes combinado com um soco). Os socos são os do boxe: direto, gancho e uppercut. Ao contrário de outras artes de pontapés, não se usam joelhos nem canelas: só os pés, calçados.
Prestígio e declínio
No fim do século XIX a savate era praticada por burgueses e oficiais, ensinada como desporto e defesa pessoal. Em 1924 entrou como desporto de demonstração nos Jogos Olímpicos de Paris. As duas guerras mundiais, que mataram muitos praticantes, e a popularidade do boxe inglês fizeram-na quase desaparecer. Na segunda metade do século XX foi reconstruída por um grupo de professores, e a federação nacional francesa foi criada em 1965.
Marinheiros franceses a praticar savate num navio (ilustração de 1847, colorida). Autor: Théophile Gautier · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
A savate hoje
Hoje há competições de assaut (toque controlado, avaliado pela técnica) e de combat (com KO), para homens e mulheres. Os lutadores usam luvas de boxe e botas próprias. O nível técnico é indicado por cores de luvas — azul, verde, vermelha, branca, amarela — e, acima, pela luva de prata, dividida em três graus desde 1985. A canne de combat, com bengala, é uma disciplina irmã, nascida da mesma tradição das salas de armas parisienses.
Curiosidades
O vocabulário vem da esgrima: fala-se de «assalto» e de «sala», e o lutador deve tocar «sem bater» no assalto. E a cor das luvas não muda a cada exame: um lutador pode continuar a usar o mesmo par durante várias promoções.
It is the only combat art fought in shoes — and the shoes are weapons. Savate, or "French boxing", combines the punches of English boxing with the low, precise kicks of 19th-century Paris streets.
From the streets to the salles
In the early 19th century, sailors and working people in Marseille and Paris fought with their feet in a style called chausson; the word savate, meaning "old shoe", was used for street fighting. There were no rules: head-butts, eye gouges and grabs were all allowed. That is exactly what the first teachers wanted to change.
Michel Casseux (1794–1869), known as "le Pisseux", opened the first establishment in 1825 for a regulated version that banned head-butts, eye gouging and grappling. His pupil Charles Lecour (1808–1894) took the next step.
Joseph Charlemont. Author: Joseph Charlemont · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Lecour meets English boxing
In the 1830s English boxing was fashionable in France. According to tradition, Lecour trained with English boxers and realised that, at close range, their punches were far better than the French ones. He decided to combine the two: savate's kicks and boxing's fists. He was also the first to use boxing gloves in training, so his students could practise punches without hurting their hands. Modern French boxing was born.
Charlemont and codification
Joseph Charlemont gave it the shape of a school, with illustrated treatises, named techniques and his own salle in Paris; his 1877 book on the art of French boxing and the cane became a reference. His son, Charles Charlemont, carried on the work and in 1899 faced the English boxer Jerry Driscoll in a much-discussed bout: the French claimed victory after a round kick to the stomach, but the result was disputed on the English side.
Castérès demonstrates a side kick (BnF). Author: Agence Rol. Agence photographique (commanditaire) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Techniques
Kicks are delivered with the toe or the sole of the shoe, and the body stays upright, as in fencing. The four basic kicks are the fouetté (round kick with the toe), the chassé (side or front push with the sole), the revers (hooking kick from outside) and the coup de pied bas (low kick to the shin, often combined with a punch). The punches are those of boxing: jab/cross, hook and uppercut. Unlike other kicking arts, knees and shins are not used: only the shod feet.
Prestige and decline
By the end of the 19th century savate was practised by the middle classes and officers, taught as sport and self-defence. In 1924 it was a demonstration sport at the Paris Olympic Games. The two world wars, which killed many practitioners, and the popularity of English boxing nearly made it disappear. In the second half of the 20th century it was rebuilt by a group of teachers, and the French national federation was created in 1965.
French sailors practising savate on a ship (1847 illustration, colourised). Author: Théophile Gautier · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Savate today
Today there are assaut competitions (controlled contact, judged on technique) and combat competitions (with knockouts), for men and women. Fighters wear boxing gloves and dedicated boots. Technical level is shown by glove colours — blue, green, red, white, yellow — and, above them, the silver glove, split into three grades since 1985. Canne de combat, fought with a cane, is a sister discipline born of the same Parisian salle tradition.
Curiosities
The vocabulary comes from fencing: people speak of the "assault" and the "salle", and in assaut the fighter must touch "without hitting". And glove colour does not change at every grading: a fighter may keep the same pair through several promotions.
Es el único arte de combate que se practica con zapatos, y los zapatos son armas. La savate, o «boxeo francés», une los puñetazos del boxeo inglés con las patadas bajas y precisas de las calles del París del siglo XIX.
De la calle a las salas
A principios del siglo XIX, marineros y gente del pueblo de Marsella y París luchaban con los pies en un estilo llamado chausson; la palabra savate, que significa «zapato viejo», se usaba para las peleas callejeras. No había reglas: valían cabezazos, dedos en los ojos y agarres. Eso es justo lo que quisieron cambiar los primeros profesores.
Michel Casseux (1794–1869), conocido como «le Pisseux», abrió en 1825 el primer local dedicado a una versión reglada que prohibía cabezazos, dedos en los ojos y agarres. Su alumno Charles Lecour (1808–1894) dio el paso siguiente.
Joseph Charlemont. Autor: Joseph Charlemont · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Lecour y el boxeo inglés
En los años 1830 el boxeo inglés estaba de moda en Francia. Según la tradición, Lecour entrenó con boxeadores ingleses y comprendió que, de cerca, sus puños eran muy superiores a los franceses. Decidió unir ambas cosas: las patadas de la savate y los puños del boxeo. También fue el primero en usar guantes de boxeo en el entrenamiento, para que los alumnos practicaran sin dañarse las manos. Nacía el boxeo francés moderno.
Charlemont y la codificación
Joseph Charlemont le dio forma de escuela, con tratados ilustrados, técnicas con nombre y una sala propia en París; su libro de 1877 sobre el arte del boxeo francés y el bastón se volvió referencia. Su hijo, Charles Charlemont, continuó la obra y en 1899 se enfrentó al boxeador inglés Jerry Driscoll en un combate muy comentado: los franceses reclamaron la victoria tras una patada circular al estómago, pero el resultado se discutió en el lado inglés.
Las patadas se dan con la punta o la suela del zapato, y el cuerpo se mantiene erguido, como en la esgrima. Las cuatro patadas básicas son el fouetté (circular, con la punta), el chassé (empuje lateral o frontal con la suela), el revers (en gancho, desde fuera) y el coup de pied bas (patada baja a la espinilla, a menudo con un puñetazo). Los puños son los del boxeo: directo, gancho y uppercut. A diferencia de otras artes de patadas, no se usan rodillas ni espinillas: solo los pies calzados.
Prestigio y declive
A finales del siglo XIX la savate la practicaban burgueses y oficiales, como deporte y defensa personal. En 1924 fue deporte de exhibición en los Juegos Olímpicos de París. Las dos guerras mundiales, que mataron a muchos practicantes, y el auge del boxeo inglés casi la hicieron desaparecer. En la segunda mitad del siglo XX la reconstruyó un grupo de profesores, y la federación nacional francesa se creó en 1965.
Marineros franceses practicando savate en un barco (ilustración de 1847, coloreada). Autor: Théophile Gautier · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La savate hoy
Hoy hay competiciones de assaut (contacto controlado, juzgado por la técnica) y de combat (con KO), para hombres y mujeres. Se usan guantes de boxeo y botas propias. El nivel técnico se indica con colores de guante — azul, verde, rojo, blanco, amarillo — y, por encima, el guante de plata, dividido en tres grados desde 1985. La canne de combat, con bastón, es una disciplina hermana, nacida de la misma tradición de las salas parisinas.
Curiosidades
El vocabulario viene de la esgrima: se habla de «asalto» y de «sala», y en el assaut hay que tocar «sin golpear». Y el color del guante no cambia en cada examen: un luchador puede seguir con el mismo par durante varias promociones.
C'est le seul art de combat qui se pratique chaussé — et les chaussures sont des armes. La savate, ou « boxe française », associe les poings de la boxe anglaise aux coups de pied bas et précis des rues de Paris du XIXe siècle.
De la rue aux salles
Au début du XIXe siècle, marins et gens du peuple de Marseille et de Paris se battaient avec les pieds dans un style appelé chausson ; le mot savate, « vieille chaussure », désignait les bagarres de rue. Il n'y avait pas de règles : coups de tête, doigts dans les yeux et saisies étaient permis. C'est justement ce que les premiers professeurs voulurent changer.
Michel Casseux (1794–1869), dit « le Pisseux », ouvrit en 1825 le premier établissement consacré à une version réglementée, qui interdisait coups de tête, doigts dans les yeux et saisies. Son élève Charles Lecour (1808–1894) fit le pas suivant.
Joseph Charlemont. Auteur: Joseph Charlemont · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Lecour et la boxe anglaise
Dans les années 1830, la boxe anglaise était à la mode en France. Selon la tradition, Lecour s'entraîna avec des boxeurs anglais et comprit qu'à courte distance leurs poings étaient bien supérieurs à ceux des Français. Il décida d'unir les deux : les pieds de la savate et les poings de la boxe. Il fut aussi le premier à utiliser des gants de boxe à l'entraînement, pour que ses élèves travaillent les poings sans se blesser les mains. La boxe française moderne était née.
Charlemont et la codification
Joseph Charlemont lui donna la forme d'une école, avec des traités illustrés, des techniques nommées et sa propre salle à Paris ; son livre de 1877 sur l'art de la boxe française et de la canne fit référence. Son fils, Charles Charlemont, poursuivit l'œuvre et affronta en 1899 le boxeur anglais Jerry Driscoll dans un combat très commenté : les Français revendiquèrent la victoire après un fouetté à l'estomac, mais le résultat fut contesté côté anglais.
Castérès démontre un coup de pied de flanc (BnF). Auteur: Agence Rol. Agence photographique (commanditaire) · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Techniques
Les coups de pied se portent avec la pointe ou la semelle, et le corps reste droit, comme en escrime. Les quatre coups de pied de base sont le fouetté (circulaire, de la pointe), le chassé (poussée latérale ou frontale de la semelle), le revers (en crochet, par l'extérieur) et le coup de pied bas (au tibia, souvent associé à un coup de poing). Les poings sont ceux de la boxe : direct, crochet et uppercut. Contrairement à d'autres arts de pieds, on n'utilise ni genoux ni tibias : seulement les pieds chaussés.
Prestige et déclin
À la fin du XIXe siècle, la savate était pratiquée par des bourgeois et des officiers, enseignée comme sport et comme défense. En 1924, elle fut sport de démonstration aux Jeux olympiques de Paris. Les deux guerres mondiales, qui tuèrent de nombreux pratiquants, et la vogue de la boxe anglaise faillirent la faire disparaître. Dans la seconde moitié du XXe siècle, un groupe de professeurs la reconstruisit, et la fédération nationale fut créée en 1965.
Marins français pratiquant la savate sur un navire (illustration de 1847, colorisée). Auteur: Théophile Gautier · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
La savate aujourd'hui
Il existe aujourd'hui des compétitions d'assaut (touche contrôlée, jugée sur la technique) et de combat (avec KO), masculines et féminines. On porte des gants de boxe et des chaussures spécifiques. Le niveau technique est indiqué par la couleur des gants — bleu, vert, rouge, blanc, jaune — puis par le gant d'argent, divisé en trois degrés depuis 1985. La canne de combat est une discipline sœur, née de la même tradition des salles parisiennes.
Curiosités
Le vocabulaire vient de l'escrime : on parle d'« assaut » et de « salle », et en assaut il faut toucher « sans frapper ». Et la couleur du gant ne change pas à chaque examen : un tireur peut garder la même paire pendant plusieurs promotions.