«Kung fu» significa literalmente «habilidade obtida com esforço». Pode descrever um cozinheiro ou um calígrafo. No Ocidente tornou-se o nome das centenas de estilos de combate da China. No centro de quase todas as histórias está um mosteiro budista no monte Song.
O mosteiro e as lendas
O mosteiro de Shaolin foi fundado em 495 na província de Henan, perto da cidade de Dengfeng. O seu primeiro abade foi um monge indiano conhecido nas fontes chinesas como Batuo (em sânscrito, Buddhabhadra), que contava com o patrocínio do imperador Xiaowen, dos Wei do Norte. Com Batuo, Shaolin tornou-se um centro de tradução de escrituras budistas, não de combate.
A lenda mais famosa diz que outro monge indiano, Bodhidharma, chegou por volta de 527 e ensinou aos monges exercícios que deram origem ao kung fu. Os historiadores mostraram que esta história vem de um manual de qigong do século XVII, o Yijin Jing, e que só se popularizou no século XX. Bodhidharma é venerado como patriarca do budismo Chan (Zen), mas não há provas de que tenha ensinado artes marciais.
O mosteiro de Shaolin, no monte Song (Henan). Autor: 2tanushs · Licença: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Monges guerreiros nos registos
O que os registos confirmam é que em 621 monges de Shaolin ajudaram Li Shimin, o futuro imperador Taizong dos Tang, na luta para fundar a dinastia. Uma estela no mosteiro regista o episódio, e um mural posterior mostra «treze monges armados de bastão a salvar o rei Tang». Shaolin ficou famoso sobretudo pelo bastão.
Sob a dinastia Ming, no século XVI, piratas japoneses atacavam a costa. O general Qi Jiguang reuniu artistas marciais de toda a China, entre eles monges de Shaolin, para criar um conjunto de técnicas de pugilismo e de bastão contra os invasores. O governo Ming recrutou monges de Shaolin para a guerra pelo menos seis vezes. Essa lealdade teve um preço: em 1641 forças rebeldes lideradas por Li Zicheng saquearam o mosteiro, em parte porque os monges apoiavam os Ming.
Norte e sul
Os chineses dizem «punhos no sul, pernas no norte». No norte, estilos como o Louva-a-Deus de Shandong e a Garra de Águia usam passos longos, saltos e agarres rápidos. No sul, em Fujian e Guangdong, as posturas são baixas e enraizadas e o trabalho de braços é intenso. Muitas escolas do sul dizem descender de um «Shaolin do Sul» destruído pela dinastia Qing. Os historiadores tratam essa tradição como lenda.
As grandes famílias do sul
O Hung Ga, com a sua postura do cavalo e as formas do tigre e da garça, ficou ligado ao médico e mestre Wong Fei-hung. O Choy Li Fut, criado em 1836 por Chan Heung, combina golpes longos e circulares. A Garça Branca de Fujian influenciou não só a China mas também Okinawa, onde ajudou a moldar o Naha-te. E o Wing Chun, compacto e direto, chegou ao mundo através de Ip Man, que ensinou em Hong Kong a partir de 1949. Entre os seus alunos estava um jovem chamado Bruce Lee.
Ip Man (1893–1972), mestre de Wing Chun em Hong Kong. Autor: Dever · Licença: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
Em 1900 a revolta dos Boxers mostrou como estas tradições também se misturavam com política e crença. Foram os estrangeiros que lhe deram esse nome, porque os seus membros praticavam artes de punho.
Esquema simplificado: muitos estilos têm mais de uma raiz.
Fogo e renascimento
No século XX o mosteiro sofreu o seu pior golpe. Na época dos senhores da guerra serviu de quartel-general a um dos generais rivais. Em março de 1928 Shi Yousan, um comandante às ordens de Feng Yuxiang, tomou Dengfeng e incendiou o mosteiro. Grande parte do complexo original ardeu por completo. Algumas partes sobreviveram, entre elas o antigo campo de treino, gravuras em pedra e a Floresta de Pagodes, o cemitério dos monges, onde há séculos se erguem as estupas de abades e monges ilustres.
Floresta de Pagodes, o cemitério dos monges de Shaolin (foto de 2024). Autor: Windmemories · Licença: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Hoje
A partir dos anos 1980, depois de uma nova lei chinesa de proteção do património cultural, o mosteiro foi restaurado e tornou-se um grande destino turístico, rodeado de escolas de artes marciais. A 1 de agosto de 2010 a UNESCO inscreveu os «Monumentos Históricos de Dengfeng» na lista do Património Mundial, incluindo o complexo de Shaolin, a Floresta de Pagodes e o templo Chuzu. Hoje «Shaolin» é ao mesmo tempo um mosteiro budista vivo e uma marca mundial. Monges em digressão atuam em palcos de todo o mundo, e muitas escolas fora da China ensinam formas que reclamam raízes em Shaolin. Não existe uma federação única. Muitos destes estilos competem também no wushu desportivo moderno (ver o artigo sobre wushu).
Curiosidades
Em 1982 um jovem Jet Li foi protagonista do filme Shaolin Temple, que tornou o mosteiro famoso para uma nova geração. Nesse mesmo ano a China aprovou a sua lei de proteção do património cultural, que abriu caminho ao restauro. O «Shaolin do Sul» continua a ser um enigma. Uma coletânea de episódios de 1917, o Qing bai lei chao, situa um templo Shaolin do sul em Fujian, mas os historiadores nunca confirmaram que tenha existido como centro de artes marciais. De todas as pinturas do mosteiro, uma das mais famosas mostra os treze monges de bastão que ajudaram os Tang. É uma lembrança de que a fama de Shaolin começou com o bastão, não com o punho.
Linha do tempo
495Fundação do mosteiro de Shaolin.
527Data lendária da chegada de Bodhidharma.
621Monges de Shaolin ajudam o futuro imperador Tang.
séc. XVIMonges combatem piratas na costa (dinastia Ming).
1641Rebeldes de Li Zicheng saqueiam o mosteiro.
1836Chan Heung cria o Choy Li Fut.
1900Revolta dos Boxers no norte da China.
1928Shi Yousan incendeia o mosteiro.
1949Ip Man instala-se em Hong Kong.
2010UNESCO inscreve Shaolin no Património Mundial (Dengfeng).
"Kung fu" literally means "skill gained through effort". It could describe a cook or a calligrapher. In the West it became the name for China's hundreds of fighting styles. At the heart of nearly every story stands a Buddhist monastery on Mount Song.
The monastery and the legends
The Shaolin monastery was founded in 495 in Henan province, near the town of Dengfeng. Its first abbot was an Indian monk known in Chinese sources as Batuo (in Sanskrit, Buddhabhadra), who enjoyed the patronage of Emperor Xiaowen of the Northern Wei. Under Batuo, Shaolin became a centre for translating Buddhist scriptures, not for fighting.
The most famous legend says that another Indian monk, Bodhidharma, arrived around 527 and taught the monks exercises that gave rise to kung fu. Historians have shown that this story comes from a 17th-century qigong manual, the Yijin Jing, and that it only became popular in the 20th century. Bodhidharma is honoured as the patriarch of Chan (Zen) Buddhism, but there is no evidence that he taught martial arts.
The Shaolin monastery on Mount Song (Henan). Author: 2tanushs · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Warrior monks in the records
What the records do confirm is that in 621 Shaolin monks helped Li Shimin, the future Tang emperor Taizong, in his fight to found the dynasty. A stele at the monastery records the episode, and a later mural shows "thirteen staff-wielding monks saving the Tang king". Shaolin became famous above all for the staff.
Under the Ming dynasty, in the 16th century, Japanese pirates raided the coast. General Qi Jiguang gathered martial artists from all over China, Shaolin monks among them, to build a set of boxing and staff techniques against the raiders. The Ming government recruited Shaolin monks for war at least six times. That loyalty came at a price: in 1641 rebel forces led by Li Zicheng sacked the monastery, partly because the monks supported the Ming.
North and south
The Chinese say "fists in the south, legs in the north". In the north, styles such as Shandong's Praying Mantis and Eagle Claw use long steps, jumps and fast grabs. In the south, in Fujian and Guangdong, stances are low and rooted and arm work is intense. Many southern schools claim descent from a "Southern Shaolin" destroyed by the Qing dynasty. Historians treat that tradition as legend.
The great southern families
Hung Ga, with its horse stance and tiger and crane forms, became linked to the physician and master Wong Fei-hung. Choy Li Fut, created in 1836 by Chan Heung, combines long, circular strikes. Fujian White Crane influenced not only China but Okinawa, where it helped shape Naha-te. And Wing Chun, compact and direct, reached the world through Ip Man, who taught in Hong Kong from 1949. Among his students was a young man called Bruce Lee.
Ip Man (1893–1972), Wing Chun master in Hong Kong. Author: Dever · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
In 1900 the Boxer Rebellion showed how these traditions also mixed with politics and belief. Foreigners gave it that name because its members practised fist arts.
Simplified chart: many styles have more than one root.
Fire and rebirth
In the 20th century the monastery suffered its worst blow. During the warlord era it served as headquarters for one of the rival generals. In March 1928 Shi Yousan, a commander serving under Feng Yuxiang, took Dengfeng and burned the monastery. Much of the original complex was burned to the ground. Some parts survived, among them the old training ground, stone carvings and the Pagoda Forest, the monks' cemetery, where the stupas of abbots and eminent monks have stood for centuries.
The Pagoda Forest, the cemetery of Shaolin's monks (photo from 2024). Author: Windmemories · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Today
From the 1980s, after a new Chinese law on the protection of cultural heritage, the monastery was restored and became a major tourist site, with martial arts schools all around it. On 1 August 2010 UNESCO inscribed the "Historic Monuments of Dengfeng" on the World Heritage List, including the Shaolin compound, the Pagoda Forest and the Chuzu Temple. Today "Shaolin" is both a living Buddhist monastery and a worldwide brand. Touring monks perform on stages around the world, and many schools outside China teach forms that claim Shaolin roots. There is no single federation. Many of these styles also compete in modern sport wushu (see the wushu article).
Curiosities
In 1982 a young Jet Li starred in the film Shaolin Temple, which made the monastery famous to a new generation. The same year China passed its law on the protection of cultural heritage, which opened the way to the restoration. The "Southern Shaolin" remains a puzzle. A 1917 collection of anecdotes, the Qing bai lei chao, places a southern Shaolin temple in Fujian, but historians have never confirmed that it existed as a centre of martial arts. Of all the paintings at the monastery, one of the most famous shows the thirteen staff-wielding monks who helped the Tang. It is a reminder that Shaolin's reputation began with the staff, not the fist.
«Kung fu» significa literalmente «habilidad lograda con esfuerzo». Podría describir a un cocinero o a un calígrafo. En Occidente se convirtió en el nombre de los cientos de estilos de combate de China. En el centro de casi todas las historias hay un monasterio budista en el monte Song.
El monasterio y las leyendas
El monasterio de Shaolin se fundó en 495 en la provincia de Henan, cerca de la ciudad de Dengfeng. Su primer abad fue un monje indio conocido en las fuentes chinas como Batuo (en sánscrito, Buddhabhadra), que contaba con el patrocinio del emperador Xiaowen de los Wei del Norte. Con Batuo, Shaolin se convirtió en un centro de traducción de escrituras budistas, no de combate.
La leyenda más famosa dice que otro monje indio, Bodhidharma, llegó hacia 527 y enseñó a los monjes ejercicios que dieron origen al kung fu. Los historiadores han demostrado que esta historia procede de un manual de qigong del siglo XVII, el Yijin Jing, y que solo se popularizó en el siglo XX. Bodhidharma es venerado como patriarca del budismo Chan (Zen), pero no hay pruebas de que enseñara artes marciales.
El monasterio de Shaolin, en el monte Song (Henan). Autor: 2tanushs · Licencia: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Monjes guerreros en los registros
Lo que sí confirman los registros es que en 621 monjes de Shaolin ayudaron a Li Shimin, el futuro emperador Taizong de los Tang, en su lucha por fundar la dinastía. Una estela del monasterio recoge el episodio, y un mural posterior muestra a «trece monjes con bastón salvando al rey Tang». Shaolin se hizo famoso sobre todo por el bastón.
Bajo la dinastía Ming, en el siglo XVI, piratas japoneses asolaban la costa. El general Qi Jiguang reunió a artistas marciales de toda China, entre ellos monjes de Shaolin, para crear un conjunto de técnicas de boxeo y de bastón contra los invasores. El gobierno Ming reclutó monjes de Shaolin para la guerra al menos seis veces. Esa lealtad tuvo un precio: en 1641 fuerzas rebeldes dirigidas por Li Zicheng saquearon el monasterio, en parte porque los monjes apoyaban a los Ming.
Norte y sur
Los chinos dicen «puños en el sur, piernas en el norte». En el norte, estilos como la Mantis Religiosa de Shandong y la Garra de Águila usan pasos largos, saltos y agarres rápidos. En el sur, en Fujian y Guangdong, las posiciones son bajas y enraizadas y el trabajo de brazos es intenso. Muchas escuelas del sur dicen descender de un «Shaolin del Sur» destruido por la dinastía Qing. Los historiadores consideran esa tradición una leyenda.
Las grandes familias del sur
El Hung Ga, con su posición del caballo y sus formas del tigre y la grulla, quedó ligado al médico y maestro Wong Fei-hung. El Choy Li Fut, creado en 1836 por Chan Heung, combina golpes largos y circulares. La Grulla Blanca de Fujian influyó no solo en China sino también en Okinawa, donde ayudó a dar forma al Naha-te. Y el Wing Chun, compacto y directo, llegó al mundo a través de Ip Man, que enseñó en Hong Kong desde 1949. Entre sus alumnos había un joven llamado Bruce Lee.
Ip Man (1893–1972), maestro de Wing Chun en Hong Kong. Autor: Dever · Licencia: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
En 1900 la rebelión de los Bóxers mostró cómo estas tradiciones también se mezclaban con la política y las creencias. Fueron los extranjeros quienes le dieron ese nombre, porque sus miembros practicaban artes de puño.
Esquema simplificado: muchos estilos tienen más de una raíz.
Fuego y renacimiento
En el siglo XX el monasterio sufrió su peor golpe. En la época de los señores de la guerra sirvió de cuartel general a uno de los generales rivales. En marzo de 1928 Shi Yousan, un comandante a las órdenes de Feng Yuxiang, tomó Dengfeng e incendió el monasterio. Gran parte del complejo original quedó reducido a cenizas. Algunas partes sobrevivieron, entre ellas el antiguo campo de entrenamiento, relieves en piedra y el Bosque de Pagodas, el cementerio de los monjes, donde desde hace siglos se alzan las estupas de abades y monjes ilustres.
Bosque de Pagodas, el cementerio de los monjes de Shaolin (foto de 2024). Autor: Windmemories · Licencia: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Hoy
A partir de los años ochenta, tras una nueva ley china de protección del patrimonio cultural, el monasterio fue restaurado y se convirtió en un gran destino turístico, rodeado de escuelas de artes marciales. El 1 de agosto de 2010 la UNESCO inscribió los «Monumentos Históricos de Dengfeng» en la lista del Patrimonio Mundial, incluidos el recinto de Shaolin, el Bosque de Pagodas y el templo Chuzu. Hoy «Shaolin» es a la vez un monasterio budista vivo y una marca mundial. Monjes en gira actúan en escenarios de todo el mundo, y muchas escuelas fuera de China enseñan formas que reivindican raíces en Shaolin. No existe una federación única. Muchos de estos estilos compiten también en el wushu deportivo moderno (véase el artículo sobre wushu).
Curiosidades
En 1982 un joven Jet Li protagonizó la película Shaolin Temple, que hizo famoso el monasterio ante una nueva generación. Ese mismo año China aprobó su ley de protección del patrimonio cultural, que abrió el camino a la restauración. El «Shaolin del Sur» sigue siendo un enigma. Una colección de anécdotas de 1917, el Qing bai lei chao, sitúa un templo Shaolin del sur en Fujian, pero los historiadores nunca han confirmado que existiera como centro de artes marciales. De todas las pinturas del monasterio, una de las más famosas muestra a los trece monjes con bastón que ayudaron a los Tang. Recuerda que la fama de Shaolin empezó con el bastón, no con el puño.
Cronología
495Fundación del monasterio de Shaolin.
527Fecha legendaria de la llegada de Bodhidharma.
621Monjes de Shaolin ayudan al futuro emperador Tang.
s. XVIMonjes combaten a piratas en la costa (dinastía Ming).
1641Los rebeldes de Li Zicheng saquean el monasterio.
1836Chan Heung crea el Choy Li Fut.
1900Rebelión de los Bóxers en el norte de China.
1928Shi Yousan incendia el monasterio.
1949Ip Man se instala en Hong Kong.
2010La UNESCO inscribe Shaolin como Patrimonio Mundial (Dengfeng).
« Kung-fu » signifie littéralement « habileté acquise par l'effort ». Le mot pourrait désigner un cuisinier ou un calligraphe. En Occident, il est devenu le nom des centaines de styles de combat chinois. Au cœur de presque toutes les histoires se trouve un monastère bouddhiste sur le mont Song.
Le monastère et les légendes
Le monastère de Shaolin a été fondé en 495 dans la province du Henan, près de la ville de Dengfeng. Son premier abbé était un moine indien appelé Batuo dans les sources chinoises (en sanskrit, Buddhabhadra), qui bénéficiait du patronage de l'empereur Xiaowen des Wei du Nord. Sous Batuo, Shaolin devient un centre de traduction des écritures bouddhiques, pas de combat.
La légende la plus célèbre veut qu'un autre moine indien, Bodhidharma, soit arrivé vers 527 et ait enseigné aux moines des exercices à l'origine du kung-fu. Les historiens ont montré que ce récit vient d'un manuel de qigong du XVIIe siècle, le Yijin Jing, et qu'il ne s'est popularisé qu'au XXe siècle. Bodhidharma est vénéré comme patriarche du bouddhisme Chan (zen), mais rien ne prouve qu'il ait enseigné les arts martiaux.
Le monastère de Shaolin, sur le mont Song (Henan). Auteur: 2tanushs · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Des moines guerriers dans les archives
Ce que les archives confirment, c'est qu'en 621 des moines de Shaolin ont aidé Li Shimin, futur empereur Taizong des Tang, dans sa lutte pour fonder la dynastie. Une stèle du monastère relate l'épisode, et une peinture murale plus tardive montre « treize moines armés de bâtons sauvant le roi Tang ». Shaolin est devenu célèbre avant tout pour le bâton.
Sous la dynastie Ming, au XVIe siècle, des pirates japonais ravagent les côtes. Le général Qi Jiguang réunit des artistes martiaux de toute la Chine, dont des moines de Shaolin, pour mettre au point un ensemble de techniques de boxe et de bâton contre les pillards. Le gouvernement Ming a recruté des moines de Shaolin pour la guerre au moins six fois. Cette loyauté a un prix : en 1641, des forces rebelles menées par Li Zicheng saccagent le monastère, en partie parce que les moines soutenaient les Ming.
Nord et Sud
Les Chinois disent « les poings au sud, les jambes au nord ». Au nord, des styles comme la Mante religieuse du Shandong et la Griffe d'aigle utilisent de grands pas, des sauts et des saisies rapides. Au sud, au Fujian et au Guangdong, les positions sont basses et ancrées et le travail des bras est intense. Beaucoup d'écoles du Sud se réclament d'un « Shaolin du Sud » détruit par la dynastie Qing. Les historiens tiennent cette tradition pour une légende.
Les grandes familles du Sud
Le Hung Ga, avec sa position du cavalier et ses formes du tigre et de la grue, est resté lié au médecin et maître Wong Fei-hung. Le Choy Li Fut, créé en 1836 par Chan Heung, combine des frappes longues et circulaires. La Grue blanche du Fujian a influencé non seulement la Chine mais aussi Okinawa, où elle a contribué à façonner le Naha-te. Et le Wing Chun, compact et direct, s'est fait connaître dans le monde grâce à Ip Man, qui a enseigné à Hong Kong à partir de 1949. Parmi ses élèves figurait un jeune homme nommé Bruce Lee.
Ip Man (1893–1972), maître de Wing Chun à Hong Kong. Auteur: Dever · Licence: Domínio público / Public domain · Wikimedia Commons
En 1900, la révolte des Boxers a montré combien ces traditions se mêlaient aussi à la politique et aux croyances. Ce sont les étrangers qui lui ont donné ce nom, parce que ses membres pratiquaient des arts du poing.
Schéma simplifié : beaucoup de styles ont plusieurs racines.
Le feu et la renaissance
Au XXe siècle, le monastère subit son pire coup. À l'époque des seigneurs de la guerre, il sert de quartier général à l'un des généraux rivaux. En mars 1928, Shi Yousan, un commandant au service de Feng Yuxiang, prend Dengfeng et incendie le monastère. Une grande partie du complexe d'origine est réduite en cendres. Certaines parties survivent, dont l'ancien terrain d'entraînement, des gravures sur pierre et la Forêt des pagodes, le cimetière des moines, où se dressent depuis des siècles les stupas des abbés et des moines éminents.
La Forêt des pagodes, cimetière des moines de Shaolin (photo de 2024). Auteur: Windmemories · Licence: CC BY-SA 4.0 · Wikimedia Commons
Aujourd'hui
À partir des années 1980, après une nouvelle loi chinoise sur la protection du patrimoine culturel, le monastère est restauré et devient un grand site touristique, entouré d'écoles d'arts martiaux. Le 1er août 2010, l'UNESCO inscrit les « Monuments historiques de Dengfeng » sur la liste du patrimoine mondial, dont l'ensemble de Shaolin, la Forêt des pagodes et le temple Chuzu. Aujourd'hui, « Shaolin » est à la fois un monastère bouddhiste vivant et une marque mondiale. Des moines en tournée se produisent sur des scènes du monde entier, et beaucoup d'écoles hors de Chine enseignent des formes qui revendiquent des racines à Shaolin. Il n'existe pas de fédération unique. Beaucoup de ces styles concourent aussi dans le wushu sportif moderne (voir l'article sur le wushu).
Curiosités
En 1982, un jeune Jet Li tient le rôle principal du film Shaolin Temple, qui fait connaître le monastère à une nouvelle génération. La même année, la Chine adopte sa loi sur la protection du patrimoine culturel, qui ouvre la voie à la restauration. Le « Shaolin du Sud » reste une énigme. Un recueil d'anecdotes de 1917, le Qing bai lei chao, situe un temple Shaolin du Sud au Fujian, mais les historiens n'ont jamais confirmé qu'il ait existé comme centre d'arts martiaux. De toutes les peintures du monastère, l'une des plus célèbres montre les treize moines au bâton qui ont aidé les Tang. Elle rappelle que la réputation de Shaolin a commencé avec le bâton, pas avec le poing.
Chronologie
495Fondation du monastère de Shaolin.
527Date légendaire de l'arrivée de Bodhidharma.
621Des moines de Shaolin aident le futur empereur Tang.
XVIe s.Des moines combattent les pirates côtiers (Ming).
1641Les rebelles de Li Zicheng saccagent le monastère.
1836Chan Heung crée le Choy Li Fut.
1900Révolte des Boxers en Chine du Nord.
1928Shi Yousan incendie le monastère.
1949Ip Man s'installe à Hong Kong.
2010L'UNESCO inscrit Shaolin au patrimoine mondial (Dengfeng).